A Brookfield promove uma reestruturação no alto escalão da Tegra e recoloca um nome conhecido no comando da incorporadora. Ubirajara Freitas deixa a cadeira de CEO no fim de junho, após 11 anos à frente da companhia, e será substituído por André Lucarelli, executivo que já passou pela Tegra entre 2009 e 2018. A mudança também alcança o financeiro: Alexandre Wolynec sai do cargo de CFO e dá lugar a Luiz Pereira, outro profissional com longa trajetória na Brookfield e passagem relevante pela operação imobiliária. O movimento ocorre em um momento em que a Tegra tenta acelerar vendas, recuperar margens e manter a tração operacional após um ano de prejuízo líquido, mas com crescimento expressivo em lançamentos e vendas. Para entender o que está por trás da troca de comando, o que muda na estratégia e quais sinais o mercado deve observar daqui para frente, siga a leitura:
Mudança no comando e quem assume
A Brookfield decidiu mexer na liderança da Tegra e trouxe de volta um nome com histórico dentro da casa para conduzir a incorporadora em uma nova fase. André Lucarelli, hoje vice-presidente sênior de investimentos em real estate da controladora, assume o comando após a saída de Ubirajara Freitas, que deixará a empresa no fim de junho. A transição marca o encerramento de um ciclo importante: Ubirajara esteve por 11 anos à frente da companhia e foi responsável por conduzi-la em um período de transformação estratégica, com foco em mercados considerados mais promissores e em um reposicionamento mais afinado ao perfil de produto que a empresa quer defender.
Lucarelli não chega como um desconhecido. Ele já foi diretor de negócios da Tegra entre 2009 e 2018, período em que acompanhou de perto a consolidação da marca e o amadurecimento da operação residencial. A própria empresa, no entanto, tratou a nomeação como interina e não detalhou os próximos passos da governança. Essa combinação de retorno de executivo experiente e tom de cautela sugere um movimento pragmático da Brookfield: preservar conhecimento interno, reduzir ruídos na transição e, ao mesmo tempo, manter flexibilidade para ajustar o comando conforme a estratégia evolua. No mesmo pacote, o CFO Alexandre Wolynec também sai, substituído por Luiz Pereira, reforçando que a mudança vai além de uma simples troca de cadeira.
O que está por trás da reorganização
Para entender a leitura estratégica da Brookfield, vale olhar para a história da Tegra. A incorporadora nasceu em 2009 a partir da compra de duas operações, MB Engenharia e Company, quando a gigante canadense decidiu ampliar sua presença no residencial brasileiro. Na época, a marca passou a se chamar Brookfield Incorporações e, mais tarde, foi rebatizada como Tegra. Esse caminho mostra que a empresa sempre operou como um ativo de relevância para o grupo, com forte vínculo a decisões de alocação de capital, ciclo imobiliário e reposicionamento de portfólio.
Em 2015, durante a crise pós-Dilma, a Brookfield apostou em Ubirajara Freitas para liderar um turnaround. A escolha fazia sentido: ele vinha da Cyrela, onde foi CEO até 2012, e tinha reputação de executivo capaz de combinar disciplina comercial com leitura fina de mercado. Sob sua gestão, a companhia direcionou esforços para regiões metropolitanas estratégicas, como São Paulo, Campinas e Rio, e aprofundou o foco em média e alta renda. Além disso, a Tegra criou a Tamboré Urbanismo, ampliando sua atuação para além da incorporação tradicional. O quadro atual, portanto, não parece sinalizar ruptura, mas sim uma tentativa de renovar o fôlego da estratégia com gente que já conhece a engrenagem por dentro. É uma mudança de direção que busca continuidade com mais agilidade.
A lógica do retorno
O retorno de um ex-executivo costuma enviar uma mensagem clara ao mercado: a companhia prefere velocidade de adaptação a longos períodos de aprendizado. No caso da mudanças no comando da Tegra, isso faz ainda mais sentido porque a empresa atravessa um momento em que a execução pesa tanto quanto a tese de longo prazo. Lucarelli conhece os ativos, conhece a cultura corporativa e conhece o histórico de decisões comerciais da operação. Isso pode acelerar a tomada de decisão em temas como landbank, mix de produtos, margem bruta e ritmo de lançamentos, pontos essenciais em incorporadoras que competem em mercados de alta renda e dependem de disciplina para preservar rentabilidade.
Também há um aspecto simbólico importante. A Brookfield não está apenas substituindo executivos; está, na prática, reafirmando o controle sobre uma empresa que nasceu de sua estratégia de expansão no Brasil e que ainda carrega peso relevante no setor. Para quem acompanha o mercado imobiliário, esse tipo de ajuste costuma indicar que a controladora quer reforçar governança, alinhar prioridades e preparar a operação para uma fase mais seletiva. Em outras palavras, a casa reorganiza a mesa para jogar com mais precisão, não necessariamente para mudar o jogo inteiro.
Os desafios da Tegra em 2026
O pano de fundo da troca de comando é um desempenho que mistura sinais positivos e fragilidades. No último ano, a Tegra fechou com prejuízo líquido de R$ 77 milhões, revertendo o lucro de R$ 2,2 milhões registrado anteriormente. A companhia atribui o resultado negativo à concentração de lançamentos no fim do ano, o que reduz a diluição de despesas, e às margens pressionadas por safras de projetos de 2021 e 2022. Em contrapartida, a operação comercial mostrou força: foram R$ 3,1 bilhões em Valor Geral de Vendas lançados, alta de 65% na comparação anual, além de R$ 1,6 bilhão em vendas líquidas, avanço de 17%.
Essa combinação revela um ponto central do momento da incorporadora: crescer em volume não basta se a rentabilidade ainda estiver sob pressão. O mercado residencial, especialmente nos segmentos de média e alta renda, exige precisão na escolha de terrenos, no timing de lançamento e na composição de produtos. Com custo de capital sensível e consumidores mais seletivos, qualquer deslize pode comprimir margens e atrasar a conversão de demanda em caixa. Por isso, a prioridade declarada pela empresa para este ano é acelerar vendas e ampliar margens. Na prática, isso significa transformar tração comercial em eficiência financeira, um desafio que exige coordenação entre desenvolvimento urbano, incorporação, engenharia, financeiro e comercial.
Outro ponto relevante é o ambiente corporativo em torno da companhia. A Tegra ainda é listada na Bolsa na categoria A, mas descontinuou a negociação de ações no início do ano, um movimento que pode reduzir a visibilidade pública do papel e, ao mesmo tempo, abrir espaço para uma gestão menos pressionada pelo curto prazo. Ainda assim, a percepção do mercado continua importante porque afeta reputação, custo de capital e confiança de fornecedores, parceiros e clientes. Nesse cenário, a troca no topo pode funcionar como um recado de disciplina: a controladora quer ajustar a estrutura para enfrentar 2026 com mais foco operacional e menos dispersão.
O que essa troca sinaliza para o setor
Em uma leitura mais ampla, a decisão da Brookfield reforça como o mercado imobiliário residencial segue extremamente dependente de ciclos, margens e credibilidade de gestão. Empresas que operam em faixas de média e alta renda precisam de executivos capazes de navegar entre expansão e preservação de valor, e isso raramente acontece sem reposicionamentos ao longo do caminho. A saída de Ubirajara Freitas e a entrada de André Lucarelli mostram que a incorporadora está buscando equilíbrio entre experiência acumulada e renovação de comando. Para o setor, esse tipo de movimento também mostra que a governança continua sendo um diferencial competitivo, sobretudo em momentos de crédito mais caro e demanda mais exigente.
Há ainda uma leitura estratégica sobre a escolha de quem fica com cada função. Além de CEO, Ubirajara também acumulava a diretoria de desenvolvimento urbano, agora transferida para Dan Suguio, que ocupa o mesmo cargo na Tamboré. Isso sugere uma reorganização para separar melhor frentes críticas e reduzir concentração decisória. Já no financeiro, a troca para Luiz Pereira adiciona um perfil com longa experiência dentro da Brookfield, o que tende a facilitar alinhamento com a controladora e maior disciplina na condução do caixa. Se o objetivo é acelerar vendas e aumentar margens, como a empresa afirmou, a nova estrutura parece desenhada exatamente para isso: menos improviso, mais controle e maior capacidade de execução. Para quem acompanha o mercado, vale observar como essa engrenagem vai se traduzir em lançamentos, mix e rentabilidade ao longo dos próximos trimestres.
Um novo foco para a próxima fase
Quando uma incorporadora troca o comando, o mercado olha além da nomeação: quer entender qual será o próximo passo da estratégia. No caso da Tegra, a mensagem inicial é de continuidade com ajuste fino. A companhia preserva o foco em praças consolidadas, mantém a aposta em média e alta renda e tenta converter bom ritmo de lançamentos em resultados mais robustos. mudanças no comando da Tegra não soam como um desvio de rota, mas como uma calibração importante para uma nova etapa de crescimento com mais disciplina.
Se a Brookfield conseguir combinar conhecimento interno, execução comercial e controle financeiro, a empresa pode entrar em um ciclo mais favorável no médio prazo. O desafio, como sempre no residencial, é transformar intenção em consistência. E é justamente aí que a troca de liderança ganha peso: não se trata só de quem senta na cadeira de CEO, mas de quem tem capacidade de fazer a operação andar mais rápido sem perder margem no caminho. Para o leitor que acompanha o mercado imobiliário, a lição é clara: em períodos de pressão, a liderança certa não apenas responde ao cenário, ela redefine o ritmo do jogo.