Depois de quase duas décadas à frente da Trisul, Jorge Cury passa o bastão de CEO para João Azevedo, atual COO da incorporadora. A mudança marca um novo capítulo para uma empresa que nasceu da fusão entre Tricury e Incosul, abriu capital em 2007 e hoje precisa combinar legado familiar, governança e disciplina operacional em um mercado residencial mais exigente. Cury deixa o posto executivo, mas segue no centro das decisões como presidente do conselho, enquanto a família continua presente na gestão. A nova fase também reforça uma estratégia já em curso: ampliar a profissionalização e manter a companhia flexível entre o médio e alto padrão e o Minha Casa Minha Vida, segmento que voltou a ganhar protagonismo em um cenário de juros elevados. Veja, a seguir, os bastidores da transição, o reposicionamento da companhia e o que muda na prática para a Trisul:
A transição na Trisul e o novo comando
Depois de quase duas décadas no centro das decisões da incorporadora que ajudou a construir, Jorge Cury deixou a cadeira de CEO da Trisul. A partir de agora, quem assume a operação diária é João Azevedo, até então COO da companhia e executivo que já vinha atuando lado a lado com Cury desde 2024. A mudança não veio como ruptura, mas como um movimento desenhado com antecedência para dar mais fôlego à gestão em um momento em que o setor residencial exige agilidade, leitura de mercado e disciplina na execução.
Na prática, Cury não sai de cena. Ele passa a ocupar a presidência do conselho de administração, posição que lhe mantém influência estratégica sobre os rumos da empresa, inclusive com o direito ao voto final em temas relevantes. Michel Saad, cofundador da incorporadora, também muda de cadeira e vai para a vice-presidência do conselho. O desenho reforça uma lógica clara: a empresa preserva sua origem e seu capital de fundação, mas passa a concentrar a gestão executiva em um perfil mais profissionalizado e com experiência recente em outra grande incorporadora.
João Azevedo traz para o cargo a bagagem de duas décadas na Even, além de uma chegada recente à Trisul já em sintonia com o comando anterior. Esse detalhe importa porque reduz o risco típico de trocas abruptas no topo: a sucessão acontece com continuidade de visão, preservando processos, cultura e linha estratégica. Em empresas de capital aberto, principalmente no setor imobiliário, esse tipo de transição planejada costuma ser decisivo para proteger a confiança de investidores, parceiros e compradores. A empresa, que vale cerca de R$ 1,3 bilhão na Bolsa e reúne cerca de 30 mil acionistas, agora tenta provar que consegue combinar legado e modernização sem perder eficiência operacional.
Legado, governança e a presença da família
A história da Trisul ajuda a entender por que essa troca de comando tem peso simbólico. A incorporadora nasceu em 2007 a partir da fusão entre a Tricury, ligada a Jorge Cury, e a Incosul, de Michel Saad, no auge do ciclo de IPOs do setor imobiliário brasileiro. Foi uma época em que muitas companhias aproveitaram a janela favorável do mercado de capitais para acelerar expansão, ganhar escala e capturar uma demanda crescente por imóveis residenciais. A Trisul entrou nesse movimento já com uma estrutura acionária que misturava vocação empresarial de longo prazo e ambição de crescimento.
Ao longo dos anos, essa combinação de família, fundadores e capital aberto exigiu um equilíbrio delicado. Cury destacou que sua saída do cargo de CEO não representa afastamento da família da companhia. Os filhos seguem em posições executivas, o que mostra que a presença familiar continua relevante. Ainda assim, a mensagem principal é outra: a empresa entende que, para atravessar ciclos mais difíceis, precisa reforçar uma governança mais técnica, menos dependente de uma figura central e mais apoiada em profissionais experientes e complementares. Em um mercado em que juros altos pressionam o financiamento, o ritmo de lançamentos e a capacidade de adaptação do portfólio, essa leitura faz sentido.
Essa decisão também conversa com uma tendência observada em incorporadoras de porte médio e grande no Brasil: separar com mais nitidez os papéis de família controladora, conselho e operação executiva. Esse arranjo costuma ampliar a previsibilidade, ajuda a reduzir ruídos e facilita a tomada de decisão baseada em dados. Para investidores, a mensagem é positiva: a empresa não está renunciando à sua identidade, mas buscando uma estrutura em que a profissionalização da gestão seja capaz de sustentar crescimento com menos dependência de decisões personalistas. Em um setor cíclico, esse tipo de arquitetura corporativa pode funcionar como um verdadeiro escudo estratégico.
Como a sucessão foi construída
A sucessão de Jorge Cury não parece ter sido improvisada. A chegada de João Azevedo em 2024 já indicava uma preparação gradual para a transição, com integração à rotina da empresa e proximidade com as decisões mais relevantes. Esse método reduz incertezas internas e aumenta a probabilidade de uma passagem de bastão suave, algo especialmente valioso em companhias listadas, onde qualquer sinal de descontinuidade pode afetar percepção de risco e até precificação das ações.
Além disso, a troca de comando ocorre em um momento em que a Trisul parece querer consolidar um modelo de liderança mais distribuído. O CEO passa a ser o executor do plano, enquanto o conselho preserva visão de longo prazo e o controle familiar segue ancorando a cultura. Essa divisão de responsabilidades tende a fortalecer o processo decisório e a permitir que a empresa responda com mais velocidade a mudanças de demanda, crédito e custo de construção.
MCMV, versatilidade e estratégia de mercado
A nova fase da Trisul também precisa ser lida à luz do momento do mercado residencial. Com juros elevados, o comportamento do comprador muda, o crédito fica mais seletivo e as incorporadoras precisam ser mais precisas ao escolher onde atuar. Nesse contexto, o Minha Casa Minha Vida voltou a ocupar espaço importante nas estratégias de diversas empresas, e a Trisul não está fora desse movimento. No primeiro trimestre, dois dos três lançamentos da companhia foram enquadrados no programa, sinalizando uma leitura pragmática da demanda e da capacidade de absorção do mercado.
João Azevedo deixou claro que a companhia está vendo oportunidades melhores no segmento econômico, mas sem abandonar o médio e alto padrão. Essa postura é valiosa porque evita a armadilha de depender de um único nicho. Quando o ciclo muda, empresas com maior versatilidade conseguem proteger margens, manter pipeline de lançamentos e navegar melhor entre regiões e perfis de público. Para o mercado imobiliário, essa capacidade de ajustar o mix de produtos é uma vantagem competitiva real, especialmente quando a taxa de juros pressiona a acessibilidade ao crédito fora dos programas incentivados.
O posicionamento da Trisul mostra que não se trata de migrar cegamente para o econômico, mas de ler o ambiente e calibrar o portfólio. O programa habitacional, nesse cenário, funciona como um canal de velocidade comercial e de previsibilidade de venda, enquanto o segmento de médio e alto padrão segue relevante para capturar valor em praças e projetos específicos. A empresa parece trabalhar com uma lógica de portfólio inteligente: ampliar a resiliência sem abrir mão de oportunidades mais rentáveis quando elas aparecem.
Esse tipo de estratégia vem ganhando força no setor porque o comprador residencial também está mais criterioso. Em vez de apostar apenas em escala, as companhias precisam responder a uma combinação de preço, financiamento, localização e prazo de entrega. Ao manter atuação em duas frentes, a Trisul aumenta sua capacidade de atravessar diferentes momentos do ciclo imobiliário. E, do ponto de vista de gestão, a entrada de um executivo com trajetória longa em outra incorporadora adiciona repertório para executar essa agenda com disciplina.
A próxima jogada da Trisul no tabuleiro imobiliário
O recado da mudança é claro: a Trisul quer seguir crescendo sem depender exclusivamente do estilo de comando que marcou sua origem. A companhia preserva a memória dos fundadores, mas coloca a operação nas mãos de um executivo preparado para lidar com um mercado mais técnico, mais competitivo e menos tolerante a erros de execução. Em uma indústria em que terreno, funding, prazo e demanda precisam se encaixar com precisão, essa mudança pode ser lida como um passo de maturidade corporativa.
Para investidores e observadores do setor, o ponto central agora será acompanhar se a nova liderança conseguirá manter a consistência operacional, ampliar a eficiência e sustentar resultados em um cenário ainda desafiador. Se o plano funcionar, a companhia pode transformar a sucessão em vantagem estratégica, reforçando sua posição entre as incorporadoras de capital aberto mais relevantes do segmento residencial. No fim das contas, a história da Trisul mostra que gestão também é timing: saber a hora de liderar, a hora de delegar e a hora de acelerar. E quando esses movimentos se encaixam, o mercado percebe rápido.