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Acontece no mercado imobiliário

Panamericana preservada: vitória da arquitetura

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

21 de maio de 2026

tempo de leitura:

14 min

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A Escola Panamericana de Arte e Design escapou do risco de desaparecer da paisagem paulistana. Em uma decisão celebrada por arquitetos, moradores, estudantes e entidades de preservação, o Conpresp manteve o tombamento do edifício da Avenida Angélica, em Higienópolis, projetado por Siegbert Zanettini e inaugurado em 1998. O veredito encerra uma disputa que colocou em lados opostos o interesse imobiliário e a defesa da memória arquitetônica de São Paulo, especialmente após a demolição da primeira sede da escola, na Rua Groenlândia, em 2021. Mais do que salvar um prédio, a decisão reafirma o valor cultural de uma obra marcada pela linguagem pós-moderna, pelo uso do aço e pela integração entre arquitetura, ensino e cidade. Ao longo desta matéria, você vai entender por que esse tombamento virou símbolo urbano, como se formou a mobilização em defesa do edifício e o que essa vitória representa para o mercado imobiliário e para a preservação patrimonial em São Paulo:

Por que o edifício virou símbolo

A preservação da Escola Panamericana de Arte e Design não foi apenas a defesa de um endereço em Higienópolis, mas a proteção de uma ideia de cidade. O edifício da Avenida Angélica, assinado por Siegbert Zanettini, consolidou-se como uma das obras mais reconhecíveis da arquitetura paulistana contemporânea por combinar precisão estrutural, transparência visual e uma presença urbana difícil de ignorar. Sua linguagem, marcada pelo aço aparente, pelo vidro e pelas cores primárias, tornou-se parte da memória afetiva e estética de quem circula pela região. Em um bairro associado à história da elite paulistana, a escola trouxe um contraste elegante entre tradição e experimentação, mostrando que o patrimônio também pode ser recente, ousado e tecnicamente avançado. Foi esse valor simbólico que ajudou a transformar o debate em algo maior do que uma disputa sobre uso do solo. Afinal, quando uma obra consegue representar uma época, uma pedagogia e uma forma de construir, ela deixa de ser somente um imóvel. Ela passa a ser referência cultural. E é exatamente por isso que a expressão tombamento Escola Panamericana ganhou tanta força na imprensa, nas redes e entre os defensores do patrimônio. A decisão do Conpresp reposiciona o prédio como um marco da cidade e não apenas como um ativo imobiliário.

O projeto também carrega uma história rara de alinhamento entre arquiteto e cliente. A escola, fundada por Enrique Lipszyc, deu a Zanettini liberdade criativa para desenvolver uma obra que dialogasse com a proposta educacional da instituição. O resultado foi um edifício que não apenas abriga aulas, mas comunica uma visão de ensino: aberta, integrada, dinâmica e voltada à experimentação. Na prática, a arquitetura tornou-se extensão da pedagogia. Essa relação explica por que professores, estudantes e ex-alunos reagiram com intensidade quando surgiu o risco de intervenção no imóvel. Não se tratava apenas de proteger paredes e vigas, mas de preservar uma narrativa urbana construída ao longo de décadas. Em São Paulo, onde tantas transformações apagam referências em nome da renovação, a permanência da Panamericana representa uma rara vitória da continuidade. E, para o mercado imobiliário, esse episódio ensina algo valioso: valor não se mede só por potencial construtivo, mas também por identidade, reputação e capacidade de gerar pertencimento.

A batalha pelo tombamento

O desfecho favorável no Conpresp foi resultado de uma mobilização longa e articulada. O pedido de tombamento havia sido apresentado ainda em 2021 pela Associação de Proprietários, Protetores e Usuários de Imóveis Tombados, a Apito, no mesmo ano em que a primeira sede da Escola Panamericana, na Rua Groenlândia, foi demolida. Aquela perda funcionou como um alerta para arquitetos, moradores e instituições ligadas à preservação. Se um edifício emblemático já havia sido destruído, havia o temor de que a segunda unidade seguisse o mesmo caminho. A partir daí, formou-se uma rede de defesa que reuniu diferentes vozes em torno de um objetivo comum: impedir que uma peça relevante da arquitetura pós-moderna paulistana desaparecesse sem debate público. Esse tipo de articulação é cada vez mais importante em cidades sob forte pressão imobiliária, nas quais o tempo de decisão do capital costuma ser mais rápido do que o tempo de construção da memória. No caso da Panamericana, a reação foi vigorosa e estratégica, mostrando que o patrimônio precisa de defesa técnica, mas também de presença social. Foi justamente essa combinação que deu densidade ao movimento.

Um dos elementos mais marcantes dessa mobilização foi o protagonismo de Siegbert Zanettini, hoje com 91 anos, que se colocou novamente como voz pública em defesa da cidade. Ele já tinha experiência em disputas urbanas, tendo atuado nos anos 1990 como principal porta-voz de associações de bairro da Vila Olímpia e de Pinheiros durante a revisão da expansão da Avenida Faria Lima. Ou seja, o arquiteto não apenas assina a obra, mas também compreende o jogo urbano e institucional que cerca sua preservação. Ao lado do Coletivo Pró-Higienópolis, de associações, de estudantes e de moradores, Zanettini ajudou a transformar a questão em uma causa coletiva. Houve desenho ao ar livre, encontros, manifestações e uma presença constante de grupos como os Urban Sketchers SP, que deram ao episódio uma dimensão pública, sensível e visual. O apoio da Docomomo Brasil e da direção da FAU-USP reforçou o argumento técnico, enquanto vereadores e a ESPM também se posicionaram a favor da manutenção do tombamento. Em outras palavras, o caso mostrou que preservar arquitetura de qualidade exige mobilização, argumento e capacidade de dar visibilidade ao valor cultural do edifício.

O que pesou na decisão

Do ponto de vista institucional, o Conpresp já havia indicado em 2024 que o edifício possuía características importantes da linguagem pós-moderna e do urbanismo paulistano do fim do século 20. Esse enquadramento foi decisivo porque retira a discussão do terreno da opinião e a leva para o campo da relevância histórica e arquitetônica. A Keeva Investimentos e Participações, ligada aos herdeiros de Enrique Lipszyc, contestou o tombamento alegando falta de excepcionalidade cultural. Mas a força do processo esteve justamente em demonstrar o contrário: a raridade da obra, a qualidade do sistema construtivo, a relevância da assinatura de Zanettini e a potência de sua relação com a cidade. Em debates urbanos, nem sempre o mais fácil de explicar é o mais importante; às vezes, o valor está em elementos que só se revelam quando se observa o conjunto. A escola é um desses casos. O prédio combina engenharia e desenho com uma clareza que é, ao mesmo tempo, didática e sofisticada. Por isso, sua preservação foi defendida como um gesto de responsabilidade cultural. No fundo, a votação favorável não premiou apenas uma edificação, mas um modo de pensar São Paulo como cidade que aprende com sua própria arquitetura.

O que essa decisão significa para São Paulo

O tombamento mantido da Escola Panamericana ajuda a estabelecer um precedente relevante para o debate urbano na capital paulista. Em um cenário em que terrenos valem muito, a tentação de substituir edifícios emblemáticos por novas ocupações costuma ser grande. Só que a cidade perde muito quando trata sua produção arquitetônica recente como algo descartável. A preservação do prédio da Avenida Angélica sinaliza que obras da segunda metade do século 20 também merecem proteção, especialmente quando ajudam a contar a história da transformação tecnológica e estética de São Paulo. Para o setor imobiliário, isso não significa travar o desenvolvimento, mas entender que o valor de um ativo pode incluir sua vocação cultural, seu reconhecimento público e sua capacidade de reforçar a imagem de uma marca ou de um bairro. Em projetos de requalificação urbana, esse raciocínio é cada vez mais estratégico, porque boa parte do público busca autenticidade, memória e diferenciação. Nesse sentido, a Escola Panamericana permaneceu de pé não apenas por causa do passado, mas também por sua relevância para o futuro da cidade.

Há ainda um aspecto simbólico que merece destaque: a decisão reafirma que patrimônio não é tema restrito a especialistas. Quando moradores, estudantes e profissionais se engajam, o processo ganha legitimidade e mostra que a cidade é construída na esfera pública. A mobilização em torno da escola também ilustra como o debate sobre arquitetura pode ampliar a consciência urbana e educar o olhar coletivo. Ao aceitar o tombamento, o poder público reconhece que certos edifícios têm capacidade de ensinar, inspirar e estabelecer referências. É uma mensagem importante para incorporadoras, planejadores e gestores: o desenvolvimento urbano mais inteligente não é o que apaga tudo, mas o que escolhe com critério o que deve permanecer. E, em mercados competitivos, essa leitura pode ser um diferencial poderoso para projetos que buscam reputação de longo prazo. Se o imóvel comunica história e qualidade, ele tende a conversar melhor com uma cidade que valoriza identidade. Em outras palavras, proteger a arquitetura certa também é uma forma de fortalecer o próprio território.

O legado que fica para a cidade

A vitória no Conpresp encerra uma disputa concreta, mas abre uma reflexão mais ampla sobre o futuro do patrimônio arquitetônico em São Paulo. A Escola Panamericana não sobreviveu por acaso: ela foi defendida por quem entendeu, no momento certo, que certas obras precisam ser lidas como bens públicos de valor coletivo. Esse tipo de desfecho fortalece a cultura urbana e ajuda a criar um repertório mais sofisticado para lidar com imóveis emblemáticos. Em vez de enxergar a preservação como obstáculo, a cidade pode tratá-la como ferramenta de inteligência territorial. É nessa chave que o caso se torna tão relevante para arquitetos, empreendedores e comunicadores do mercado imobiliário. A preservação bem conduzida pode gerar diferenciação, credibilidade e narrativa de marca, enquanto a demolição de referência consolidada pode produzir perda de imagem e ruptura de memória. O episódio da Panamericana mostra que há, sim, espaço para inovação sem amnésia. Quando a cidade escolhe preservar uma obra de valor, ela afirma sua maturidade cultural e amplia as possibilidades de futuro.

Se houve emoção na sessão do Conpresp, ela veio do reconhecimento de que a luta foi maior do que um prédio. Foi uma defesa da cidade como construção coletiva, da arquitetura como linguagem pública e da memória como ativo urbano. Zanettini resumiu bem esse espírito ao dizer que a conquista é da cultura paulistana e do Brasil. E essa talvez seja a lição mais forte do caso: nem toda vitória precisa ser medida em metros quadrados ou em retorno financeiro. Algumas vitórias se medem em permanência, em significado e em capacidade de inspirar novas gerações. Para quem acompanha o mercado imobiliário com atenção, o recado é claro: lugares contam histórias, e histórias bem cuidadas valem muito. A Panamericana continua lá para provar isso — viva, visível e mais forte do que antes.