Quem passa pela Avenida São Luís, no centro de São Paulo, talvez não saiba o nome, mas certamente já viu o trabalho de Eduardo Paziam em algum canteiro. Ex-designer de tecidos de luxo, ele trocou o ritmo acelerado da moda pela paciência de cuidar de árvores, jardins de chuva e áreas verdes na região da República. O que começou como a vontade simples de acompanhar o crescimento de um ipê-amarelo da varanda acabou virando o Pazipê, um projeto urbano que hoje se espalha por praças, viadutos e calçadas, com apoio de moradores, comerciantes e da Prefeitura. Nesta reportagem, você vai entender como essa transformação aconteceu, o que inspirou Paziam a insistir mesmo após fracassos e por que sua história diz tanto sobre cidade, resiliência e ocupação qualificada do espaço urbano:
De um ipê na varanda para um projeto urbano
Quem observa os canteiros da Avenida São Luís, na República, pode imaginar que há uma equipe grande por trás de cada muda bem posicionada, de cada árvore crescendo firme e de cada jardim que ajuda a refrescar o Centro de São Paulo. Mas a história, na prática, começa com uma decisão bem menor e muito mais íntima: a vontade de ver um ipê-amarelo florescer diante da própria janela. Foi assim que Eduardo Paziam, recém-aposentado após décadas no mercado internacional de moda, deu início ao que se tornaria um trabalho de regeneração urbana com impacto visível em uma das áreas mais movimentadas da cidade. O que era apenas um experimento doméstico virou rotina pública, projeto comunitário e, hoje, símbolo de persistência. Eduardo Paziam deixou para trás uma carreira marcada por feiras têxteis, fábricas na China e semanas de moda em Paris e Nova York para se dedicar a um tipo diferente de criação: a de paisagem, sombra e convivência.
Nascido em Araçatuba, formado em comércio exterior e artes plásticas, ele se encontrou durante anos em um universo guiado por velocidade, metas e consumo. Com o avanço da fast fashion, porém, o encanto foi cedendo espaço ao incômodo. Ao perceber o peso ambiental e humano dessa engrenagem, especialmente depois de ver imagens de excesso de descarte de roupas em países asiáticos, Paziam começou a repensar o sentido do que fazia. A pandemia acelerou esse processo. Com a produção travada e a vida profissional em pausa, ele decidiu vender sua participação na empresa e se afastar do setor. O tempo livre, então, passou a ser dedicado ao ipê cultivado na varanda — uma árvore que representava, ao mesmo tempo, espera, beleza e continuidade.
Esse primeiro gesto, aparentemente simples, revela muito sobre a força de quem muda o ambiente ao redor a partir de uma visão clara. O projeto ganhou nome, identidade e propósito: Pazipê, mistura do apelido “Pazi” com o ipê-amarelo que inaugurou tudo. Mais do que uma marca, o nome traduz uma postura. Em vez de esperar que a cidade se transforme sozinha, ele escolheu participar da transformação, começando por pequenos canteiros e avançando para iniciativas mais ambiciosas. É a partir desse ponto que a história deixa de ser apenas pessoal e passa a dialogar com urbanismo, sustentabilidade e pertencimento — temas centrais para quem pensa a cidade como espaço de valor, e não só de passagem.
Aprendizados entre fracassos e recomeços
A trajetória de Paziam não foi linear, e talvez seja justamente isso que a torne tão inspiradora. O primeiro esforço para criar jardins de chuva na Praça da República terminou em frustração: após um ano de cuidado, quase tudo morreu. Em vez de encerrar a experiência, ele a tratou como aprendizado. Esse detalhe faz toda a diferença, porque mostra uma mentalidade que combina o arquétipo do Herói — aquele que enfrenta obstáculos sem desistir — com a visão do Mago, que enxerga em cada erro uma possibilidade de refinamento. No caso de um jardim urbano, isso significa entender solo, drenagem, insolação, espécies adequadas e os limites reais da manutenção em um centro densamente ocupado.
Antes disso, uma temporada em Londres havia despertado sua curiosidade pelos jardins de chuva, estudados em Kew Gardens, referência mundial em botânica. A partir dali, ele passou a buscar respostas mais técnicas para os desafios da República. Não bastava plantar; era preciso compreender como a água se comporta na cidade, como as espécies se adaptam ao ambiente e de que maneira o paisagismo pode melhorar microclimas e reduzir problemas de escoamento. Essa virada de percepção o levou a estudar drenagem urbana, vegetação nativa e soluções que pudessem ser replicadas em escala. O fracasso do primeiro jardim, então, deixou de ser fim e virou método. A cidade, afinal, não recompensa improviso: ela exige constância, conhecimento e uma dose de coragem.
Em Singapura, novo ponto de observação, Paziam encontrou outro choque de realidade. As estufas do Gardens by the Bay, com sua combinação de infraestrutura, arquitetura e vegetação exuberante, mostraram que era possível integrar natureza e urbanidade em níveis muito mais sofisticados do que os que ele havia experimentado até então. A pergunta que nasceu desse contraste foi decisiva: se outros lugares conseguiam, por que não tentar aqui? Essa provocação o empurrou para a ação. De volta a São Paulo, ele passou a adaptar as referências ao contexto local, com espécies mais resistentes, canteiros mais amplos e árvores da Mata Atlântica. O resultado não veio de uma fórmula mágica, mas da soma entre observação, paciência e insistência — três qualidades indispensáveis para qualquer transformação urbana consistente. É esse tipo de visão prática, mas quase alquímica, que faz de Eduardo Paziam um personagem raro no debate sobre cidade.
O Centro mais verde como exemplo de transformação
Hoje, o impacto do trabalho de Paziam vai muito além de um jardim bonito. Ele assumiu mais 30 canteiros da Avenida São Luís pelo programa Adote uma Praça, da Prefeitura, ampliando um conjunto de áreas que já incluía jardins de chuva na Praça da República, um pomar na Praça Dom José Gaspar e um bosque sob o Viaduto Santa Ifigênia. Na prática, isso significa devolver ao espaço público uma qualidade muitas vezes subestimada: a capacidade de acolher. Em um centro com grande circulação de pedestres, edifícios históricos, comércios e intensa atividade cotidiana, a presença de vegetação melhora a experiência urbana, cria pontos de respiro e redefine a relação entre pessoas e calçadas. Não é exagero dizer que o paisagismo, nesse caso, também é estratégia de cidade.
O mais interessante é que o projeto deixou de ser individual para se tornar compartilhado. Parte da manutenção é financiada por comerciantes e empresas da região, enquanto moradores colaboram regando plantas, doando mudas e avisando quando algum canteiro é danificado. Essa rede de apoio é um sinal poderoso: quando o espaço público ganha cuidado visível, ele tende a atrair mais cuidado. A lógica é simples, mas profunda. Uma calçada arborizada não só melhora a paisagem; ela estimula pertencimento, reduz a sensação de abandono e fortalece vínculos entre quem vive, trabalha e circula pela área. Em mercados urbanos e imobiliários, isso importa muito, porque áreas bem cuidadas tendem a ser mais valorizadas, mais desejadas e mais resilientes ao desgaste do tempo.
Paziam sabe, no entanto, que qualquer transformação em espaço urbano está sujeita a desafios. Há episódios de depredação, cortes indevidos e perdas inesperadas. Mesmo assim, ele responde com teimosia positiva: se destruírem três vezes, ele planta quatro. Essa frase resume uma filosofia de ação que interessa a qualquer leitor atento às mudanças da cidade. Em vez de tratar o Centro como território perdido, ele o enxerga como lugar possível. Em vez de aceitar a deterioração como destino, propõe manutenção, presença e escala progressiva. Para quem acompanha tendências urbanas, essa postura é valiosa porque mostra que regeneração não depende apenas de grandes obras, mas também de agentes locais comprometidos, capazes de fazer a diferença dia após dia. Para ver como outras cidades criam soluções semelhantes, vale observar iniciativas de arborização e drenagem urbana em programas públicos como os descritos pela Prefeitura de São Paulo e por referências globais de infraestrutura verde como a Kew Gardens.
Quando a cidade responde ao cuidado
O que Eduardo Paziam construiu na República vai além de canteiros organizados ou de uma coleção de plantas bem escolhidas. Ele criou uma narrativa urbana em que o cuidado é contagioso. Primeiro, veio a curiosidade dos vizinhos. Depois, a colaboração dos comerciantes. Em seguida, a participação de quem passa diariamente pelo bairro e percebe que uma muda nova pode significar mais sombra, mais conforto térmico e mais dignidade para a caminhada. A força dessa transformação está justamente no modo como ela se espalha: devagar, mas de forma consistente. E, no contexto imobiliário, isso ajuda a entender um ponto essencial: cidades atraentes não surgem apenas de empreendimentos, mas de ecossistemas urbanos vivos, nos quais espaço público, mobilidade e paisagem caminham juntos.
Há também uma dimensão simbólica importante. Depois de uma longa carreira em um setor movido por excesso, Paziam escolheu dedicar sua energia a algo que cresce no tempo certo. O contraste entre moda rápida e natureza é claro: uma depende da pressa; a outra exige atenção. Ao optar pelas árvores, ele se alinhou a uma lógica de permanência, e isso conversa diretamente com a ideia de legado. Seu trabalho não entrega apenas resultado visual imediato; ele cria condições para que o bairro continue melhorando sem depender exclusivamente dele. Esse é um dos traços mais fortes de uma intervenção inteligente: ela não termina no primeiro impacto, porque planta hábitos, estimula corresponsabilidade e abre espaço para novas iniciativas.
No fim das contas, o Centro de São Paulo mais verde que Eduardo Paziam ajuda a desenhar é também um convite para repensar a relação entre iniciativa privada, poder público e comunidade. Quando essas três forças se encontram, o espaço urbano ganha outra escala de qualidade. E talvez seja justamente por isso que a história dele merece celebração: porque prova que uma boa ideia, quando regada com persistência, pode atravessar a calçada, ganhar a rua e transformar a cidade inteira.