A taxação de segunda residência deixou de ser uma discussão restrita a Nova York e começa a ganhar força em diferentes cantos dos Estados Unidos. Estados e cidades vêm testando novas cobranças sobre imóveis usados como casa de férias, pied-à-terre ou propriedades mantidas vazias por longos períodos, com o argumento de aliviar a pressão sobre o mercado local e ampliar a arrecadação. Rhode Island já colocou a medida em prática com a chamada “taxa Taylor Swift”, enquanto Montana e cidades da Califórnia avançam com propostas próprias. O tema combina política fiscal, escassez de moradia e disputa entre proprietários, eleitores e governos locais — e promete influenciar o debate imobiliário nos próximos meses. A seguir, você vai entender onde essas cobranças já começaram, como funcionam e por que elas podem se espalhar ainda mais pelo país:
Da Nova York para outros estados
A discussão sobre casas de uso ocasional ganhou um novo peso nos Estados Unidos. O que começou como uma polêmica em Nova York, com a taxação de imóveis do tipo pied-à-terre, agora aparece em projetos e leis em diferentes estados e cidades. O ponto central é simples, mas explosivo: governos locais querem cobrar mais de quem mantém uma segunda residência, especialmente em regiões onde a oferta de moradia é apertada e os preços não param de subir. Na prática, a taxação de segunda residência virou uma ferramenta política para responder ao descontentamento de moradores permanentes, que veem seus custos subirem enquanto parte relevante do estoque imobiliário permanece subutilizada.
O argumento dos defensores dessas medidas é que propriedades usadas só em parte do ano ocupam espaço, pressionam o mercado e contribuem pouco para a vida cotidiana da cidade. Já os críticos afirmam que a conta acaba caindo sobre o investimento privado, com potencial de desestimular compras, reduzir liquidez e até gerar disputas judiciais. Essa tensão ajuda a explicar por que o tema se espalhou tão rapidamente. Não se trata apenas de arrecadação, mas de uma nova forma de reorganizar o uso do território urbano e litorâneo. Em locais de alto valor, o debate se torna ainda mais sensível, porque qualquer acréscimo tributário tem impacto direto no bolso de quem possui ativos premium. E quando a discussão encosta em nomes famosos, como ocorreu em Rhode Island, o assunto ganha ainda mais visibilidade pública.
Como funciona a nova cobrança
Rhode Island foi além da retórica e transformou a ideia em lei. A chamada “taxa Taylor Swift” entrou em vigor no ano passado e criou uma sobretaxa para segundas residências avaliadas em mais de US$ 1 milhão, desde que o imóvel não seja ocupado por mais de 182 dias por ano. O modelo é progressivo: cobra US$ 2,50 para cada US$ 500 do valor avaliado acima do primeiro US$ 1 milhão. Isso faz com que propriedades de alto padrão sofram um aumento relevante na conta anual, com impacto especialmente forte em imóveis de luxo próximos ao litoral. No caso da cantora, cuja casa é estimada em cerca de US$ 28 milhões, o adicional anual projetado passa de seis dígitos, elevando drasticamente o valor pago em impostos.
Além disso, o estado também mexeu no imposto de transmissão de imóveis de luxo, ampliando a pressão sobre transações acima de US$ 800 mil. Esse tipo de desenho tributário tem um recado claro: não basta apenas comprar; é preciso sustentar o custo de manter o ativo parado ou pouco utilizado. Para os municípios, esse mecanismo é tentador porque combina arrecadação com uma narrativa política popular, a de que os residentes permanentes devem ter prioridade sobre quem usa a cidade como refúgio ocasional. Para proprietários, porém, a regra exige revisão de estratégia patrimonial, avaliação de permanência e até mudança no uso do imóvel. Em mercados premium, essa conta pode influenciar decisões de compra, venda, reforma e locação, especialmente quando o cenário tributário deixa de ser previsível. Veja também o que já se discute em bases oficiais sobre tributação imobiliária no estado em ri.gov.
Montana e Califórnia entram na jogada
Montana mostra que a tendência não está restrita a regiões costeiras e superdensas. No estado, o mercado imobiliário disparou durante a pandemia, impulsionado pela migração de compradores de outros estados em busca de casas maiores, mais espaço e regras menos rígidas. A consequência foi uma valorização ampla, que beneficiou proprietários antigos no papel, mas também os empurrou para faixas tributárias mais altas. Diante disso, o governo tentou desenhar uma solução que aliviasse quem mora de fato no estado e elevasse o custo de manter uma segunda casa. O projeto chegou a propor uma taxa anual de 1,9% sobre o valor de mercado de imóveis ocupados por menos de sete meses por ano. A medida, no entanto, enfrentou resistência dentro do próprio partido do governador Greg Gianforte e acabou judicializada, mostrando como esse tipo de política pode rapidamente sair do campo técnico para o conflito institucional.
Na Califórnia, o movimento também ganha corpo, mas com trajetórias diferentes. San Francisco já havia tentado criar uma cobrança semelhante em 2022, sem sucesso, após contestação judicial movida por uma coalizão de proprietários. Agora, San Diego ocupa o centro da discussão com uma proposta que será submetida a voto popular. A ideia é impor uma taxa de US$ 8 mil sobre imóveis vagos em 2027, subindo para US$ 10 mil em 2028. Segundo lideranças locais, a cidade poderia arrecadar entre US$ 9 milhões e US$ 20 milhões por ano. Como San Diego é a segunda maior cidade do estado, o alcance potencial é maior do que em experiências anteriores. Oakland e Berkeley já têm regras parecidas, mas a nova proposta reforça uma mudança de escala. Em um estado onde o preço da moradia já é tema de emergência social, qualquer nova medida tributária vira teste de equilíbrio entre mercado, justiça distributiva e viabilidade política.
O que isso revela sobre o mercado
Essas iniciativas indicam que a política habitacional americana está entrando em uma fase mais intervencionista. Quando cidades e estados passam a mirar imóveis vazios ou usados por poucos meses ao ano, o objetivo não é apenas aumentar a receita, mas também alterar comportamentos. O recado é que a terra urbana, especialmente em áreas valorizadas, não deve ser tratada só como ativo financeiro. Para quem atua no setor imobiliário, isso significa acompanhar de perto mudanças regulatórias, porque elas afetam a rentabilidade, o custo de carregamento e a atratividade de determinados perfis de imóvel. A discussão também mostra como o mercado residencial está cada vez mais conectado ao debate público sobre acesso, ocupação e uso eficiente do estoque existente.
Do ponto de vista econômico, a expansão da taxação de segunda residência pode produzir efeitos mistos. Em alguns lugares, ela pode incentivar a colocação de imóveis no mercado de aluguel ou a venda de casas pouco utilizadas. Em outros, pode simplesmente encarecer o custo total de manter patrimônio em regiões desejadas, sem resolver a escassez estrutural de moradia. Já do ponto de vista político, a adesão de mais cidades ao modelo tende a fortalecer a ideia de que os governos locais têm legitimidade para tributar mais quem concentra ativos em áreas de alta pressão imobiliária. O mercado, por sua vez, precisa se adaptar a essa nova realidade com análise jurídica, fiscal e estratégica antes de qualquer decisão de compra.
O mercado está dando seus próprios saltos
O avanço dessas cobranças mostra que o setor imobiliário deixou de ser apenas uma conversa sobre preço por metro quadrado. Agora, ele também envolve narrativa política, redistribuição tributária e disputa por espaço urbano. Em cidades turísticas, litorâneas ou com forte demanda migratória, o proprietário de segunda residência passa a ser observado como parte do problema — ou, dependendo do lado da discussão, como alguém que deve contribuir mais para sustentar a infraestrutura local. Esse reposicionamento é poderoso porque altera a percepção do ativo: a casa de veraneio ou o apartamento de uso esporádico deixam de ser vistos apenas como símbolo de status e passam a ser contabilizados como componente sensível da política pública.
O ponto mais importante é que o movimento ainda está no começo. Se Rhode Island serviu como laboratório, Montana e Califórnia mostram que a ideia já encontrou terreno fértil em contextos muito diferentes. Para proprietários e investidores, o sinal é claro: monitorar a legislação local deixou de ser opcional. Para as cidades, a pergunta continua aberta: cobrar mais de quem possui uma segunda casa vai realmente ampliar a oferta e aliviar os preços, ou apenas mudar a conta de lugar? Enquanto a resposta não vem, o mercado segue reagindo, testando limites e redesenhando estratégias. E, para quem acompanha o setor de perto, fica a certeza de que o debate sobre habitação nos EUA vai continuar rendendo capítulos intensos — e cada vez mais caros.