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Acontece no mercado imobiliário

Allos aposta em multiuso e amplia valor dos shoppings

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

20 de maio de 2026

tempo de leitura:

12 min

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A Allos está redesenhando o uso dos terrenos ao redor de seus shoppings para transformar esses endereços em plataformas de desenvolvimento urbano. Em vez de atuar como incorporadora, a companhia vem criando parcerias com grandes players do mercado para viabilizar projetos residenciais, hospitalares, corporativos e, em algumas praças, hoteleiros. No Parque Shopping Maceió, por exemplo, o plano já ganhou forma com a chegada de um hospital em parceria com a Unimed. A estratégia busca aumentar a densidade dos ativos, reforçar a relevância dos shoppings na rotina da cidade e criar novas fontes de receita sem exigir aportes de equity. Segundo a empresa, os empreendimentos residenciais já contratados podem adicionar até 40 mil visitantes ao fluxo dos centros comerciais, com consumo acima da média e frequência muito maior. A seguir, veja como essa tese vem sendo aplicada e por que ela pode mudar a lógica dos shoppings no Brasil:

Shoppings como plataforma urbana

O movimento da Allos mostra que o shopping center deixou de ser apenas um destino de compras para se tornar um ponto de conexão entre consumo, moradia, trabalho e serviços. Em vez de enxergar suas glebas como áreas estanques, a companhia passou a tratá-las como ativos capazes de sustentar multiuso em shoppings, com soluções desenhadas sob medida para cada praça. Na prática, isso significa abrir espaço para torres residenciais, hospitais, hotéis e edifícios corporativos em terrenos já consolidados, aproveitando a infraestrutura, a centralidade e o fluxo natural que esses endereços já possuem.

No Parque Shopping Maceió, o exemplo mais avançado dessa lógica é a construção de um hospital com a Unimed. A escolha não é aleatória: empreendimentos de saúde geram recorrência, ampliam a permanência no entorno e criam novas sinergias com o mix do shopping. Em outras cidades, a empresa avalia projetos de hospitalidade e escritórios, sempre com o mesmo raciocínio: transformar a área do shopping em um polo com múltiplas funções. Isso conversa com uma mudança estrutural no comportamento urbano pós-pandemia, quando o consumidor passou a exigir mais conveniência, menos deslocamentos e maior integração entre serviços essenciais e lazer.

Segundo a lógica defendida pela Allos, o shopping brasileiro tem uma vantagem competitiva rara: historicamente ele já nasceu com entretenimento, restaurantes e experiências que o aproximam da vida cotidiana. Por isso, ao contrário de modelos internacionais mais fechados ao varejo puro, os centros comerciais no Brasil conseguem expandir sua vocação com maior naturalidade. A leitura é clara: se o entorno já atrai pessoas, por que não adicionar novas camadas de uso e capturar valor adicional a partir disso? É exatamente essa virada que está por trás da tese de multiuso em shoppings.

Parcerias e modelo asset light

A estratégia da Allos não passa por virar incorporadora, e isso é importante para entender o desenho do negócio. A companhia quer manter o foco em seu ativo principal: a gestão de shoppings. Para viabilizar os projetos, ela atua como parceira proprietária da terra e entra, muitas vezes, como permutante em acordos com incorporadoras e construtoras que já dominam a operação local. Esse arranjo reduz risco, evita necessidade de aportes via equity e permite capturar parte do valor gerado pelos empreendimentos sem assumir o papel tradicional de desenvolvimento imobiliário do zero.

Na prática, a empresa já firmou contratos com 19 incorporadoras, incluindo nomes como Cyrela e MRV. O resultado é significativo: oito torres residenciais já foram entregues e outras 64 estão em desenvolvimento em 13 shoppings espalhados por nove estados. Ao todo, a tese já consumiu cerca de 740 mil metros quadrados de áreas pertencentes aos centros comerciais, enquanto outros 1,7 milhão de m² ainda estão mapeados para projetos futuros. Isso mostra que o plano não é pontual, mas parte de uma revisão ampla do portfólio imobiliário da companhia.

O ganho aqui não é apenas financeiro, embora ele exista. Ao estruturar esse tipo de acordo, a Allos consegue transformar terrenos subutilizados em fontes de receita de longo prazo, com retorno calculado sobre um percentual do VGV e com mínimo garantido para a operadora. É um formato inteligente porque preserva capital, diversifica a exposição e amplia o potencial de monetização dos ativos. Em termos de gestão imobiliária, o modelo sinaliza uma leitura sofisticada do mercado: em vez de vender terra ou explorar apenas aluguel, a companhia passa a capturar valor de forma mais ampla e duradoura, mantendo o controle estratégico do endereço.

Masterplan por ativo

Um dos pontos mais relevantes dessa agenda é que a Allos não aplica uma fórmula única em todos os shoppings. Segundo a empresa, cada ativo recebe um masterplan específico, desenvolvido a partir das características urbanas, do perfil de demanda e da vocação do terreno. Em alguns casos, a melhor resposta será residencial; em outros, hospitalar, corporativa ou de hospitalidade. Essa abordagem personalizada é fundamental porque o valor de um terreno não está apenas na metragem, mas na combinação entre localização, infraestrutura, densidade e contexto urbano.

Essa visão ajuda a explicar por que a companhia aposta em uma leitura tão fina do entorno. Um endereço com forte circulação de serviços de saúde pode se beneficiar mais de um hospital; já um eixo com demanda empresarial talvez tenha mais aderência a lajes corporativas ou hotelaria. Ao desenhar cada projeto com base nessa inteligência territorial, a Allos eleva a chance de sucesso de cada empreendimento e reforça a atratividade do shopping como centralidade urbana. É uma forma de usar o território como vantagem competitiva, e não apenas como reserva de área disponível.

Impacto no fluxo e na receita

Do ponto de vista comercial, a tese faz muito sentido. A empresa estima que, quando as 72 torres residenciais já contratadas estiverem em operação, o fluxo de visitantes em seus shoppings possa crescer em até 40 mil pessoas. Isso muda a dinâmica do ativo porque ele passa a depender menos de picos sazonais e mais de uma base recorrente de consumidores que moram, trabalham ou circulam diariamente pelo entorno. Em vez de um shopping visitado apenas em ocasiões específicas, surge um ecossistema com frequência mais alta e consumo mais distribuído.

As análises internas da Allos indicam que esse novo público também consome de forma diferente. De acordo com a empresa, os moradores dos empreendimentos visitam os shoppings cinco vezes mais e gastam, em média, 47% acima de um visitante tradicional. Em termos de gestão de ativos, isso é poderoso porque eleva a produtividade da área sem necessidade de expansão linear do varejo. Em outras palavras, a operação melhora a eficiência do terreno ao atrair uma clientela mais fiel e com maior potencial de receita para lojistas e para o próprio shopping.

Há ainda um efeito urbano importante: ao inserir moradia e serviços de alta recorrência no mesmo endereço, a Allos fortalece a chamada densidade primária, conceito que ajuda a explicar o volume de pessoas vivendo e circulando em torno do ativo. Isso tende a sustentar o longo prazo do shopping e a torná-lo menos vulnerável a mudanças bruscas de consumo. É uma resposta de mercado que combina inteligência imobiliária, conveniência e geração de valor. E, para o investidor, mostra que o multiuso em shoppings pode ser mais do que uma tendência: pode ser uma nova lógica de perpetuação do ativo.

Além disso, a companhia projeta receber cerca de R$ 540 milhões em dez anos com essa estratégia, reforçando a tese de que o retorno não depende apenas do aluguel do varejo. Quando o terreno vira plataforma e o shopping vira âncora de um bairro mais completo, a receita deixa de estar concentrada em uma única frente. O ativo passa a capturar valor da cidade de forma mais ampla, o que o torna mais resiliente em ciclos econômicos variados.

O que essa estratégia revela

O avanço da Allos é um retrato do novo papel dos shoppings no Brasil. Eles não estão mais limitados a vender produtos; agora podem organizar território, atrair serviços essenciais e gerar valor imobiliário em torno de suas áreas. Essa transição exige visão de longo prazo, leitura urbana e capacidade de estruturar parcerias que façam sentido para todos os lados. É aí que entra a combinação entre método e ousadia: o que parecia apenas um terreno ao lado do mall passa a ser peça central de uma engrenagem maior.

No fim das contas, a tese mostra que o mercado imobiliário está cada vez mais orientado por ecossistemas, e não por produtos isolados. O shopping que dialoga com moradia, saúde e trabalho se torna mais relevante para a cidade e mais forte para seus operadores. Para quem acompanha o setor, fica a lição de que a melhor valorização nem sempre vem de construir mais, mas de imaginar melhor o uso do que já existe. E é justamente nessa virada estratégica que a Allos vem mostrando sua força.

Se a lógica pegar de vez, outros operadores podem seguir o mesmo caminho e repensar suas próprias carteiras de terrenos. Afinal, quando o endereço é bom, o potencial raramente termina na loja da esquina. O futuro do varejo físico talvez esteja justamente em abrir a porteira para a cidade entrar — e permanecer. E é aí que o multiuso em shoppings deixa de ser uma aposta pontual para virar um mapa de crescimento.