X

Acontece no mercado imobiliário

Gramado atrai resort de R$ 1 bi e muda perfil

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

13 de abril de 2026

tempo de leitura:

15 min

compartilhar

Gramado vive uma virada que redesenha seu mapa turístico e imobiliário. Conhecida por décadas como destino de lua de mel, a cidade da Serra Gaúcha passou a atrair cada vez mais famílias com crianças, parques temáticos e projetos de grande porte voltados ao lazer de alto padrão.
 
Essa mudança de perfil abriu espaço para empreendimentos mais robustos, com hospitalidade, entretenimento e residências integradas no mesmo master plan. O maior símbolo dessa nova fase é o Sirena Gramado, complexo ancorado pelo Club Med e com investimento estimado em R$ 1 bilhão, que deve ganhar sua primeira etapa em 2027.
 
Ao mesmo tempo, a região também vê a chegada de outras bandeiras internacionais e discute gargalos de infraestrutura que podem limitar o ritmo de expansão. Neste artigo, você vai entender por que Gramado virou alvo de grandes incorporadoras, como o público familiar mudou a lógica do mercado e quais são os próximos desafios para sustentar esse novo ciclo de crescimento:

A nova Gramado: de lua de mel a destino familiar

Gramado está vivendo uma transformação que vai muito além da imagem clássica de cidade charmosa, fria e romântica. Por anos, o município foi associado a casais em busca de pousadas intimistas, fondue, vinho e cenários para lua de mel. Agora, porém, o endereço da Serra Gaúcha entrou de vez no radar de famílias com crianças, grupos multigeracionais e investidores atentos ao potencial do turismo de experiência. Essa mudança não aconteceu por acaso: ela foi sendo construída ao longo da última década com a chegada de parques temáticos, atrações indoor e um calendário de entretenimento mais amplo, capaz de esticar a permanência média do visitante e elevar o consumo local.
 
Segundo dados da prefeitura, em 2022 as famílias com crianças já representavam 30% dos visitantes, enquanto os casais ainda respondiam por 35%. O equilíbrio mudou depois da pandemia, quando o brasileiro passou a viajar mais dentro do país e buscou destinos com boa infraestrutura, clima de segurança e oferta de lazer para diferentes idades. A lógica é clara: se a viagem envolve filhos, avós e experiências para todos os perfis, o gasto tende a subir e a estadia também. É justamente esse novo comportamento que transformou Gramado em um território mais favorável para projetos maiores, com vocação para atender tanto hotelaria quanto residências de uso sazonal e entretenimento de escala. O resultado é uma cidade que deixou de depender apenas de seu apelo romântico e passou a operar com uma Gramado resort de R$ 1 bi no centro das conversas sobre desenvolvimento regional.
 
O movimento também reflete uma tendência maior do mercado de lazer no Brasil. Com o câmbio pressionado, destinos internacionais ficaram mais caros, e o público de alta renda passou a valorizar experiências premium dentro do país. Nesse cenário, Gramado ganhou relevância como destino com marca forte, fluxo recorrente e percepção de valor elevada. Para incorporadores e operadores, o ponto mais interessante é que a demanda já não se concentra apenas em hospedagem curta e sazonal. Ela se espalha por atrações, serviços, gastronomia, wellness, eventos e imóveis que fazem sentido como parte de uma plataforma mais ampla de entretenimento. Em outras palavras, o que antes era uma cidade de encanto, agora se consolida como uma máquina de experiências.
 

Sirena Gramado e o peso do Club Med

O maior símbolo dessa nova fase é o Sirena Gramado, projeto de luxo com investimento estimado em R$ 1 bilhão e primeira fase prevista para 2027. O empreendimento ocupa uma área de 205 hectares e foi desenhado para unir hospitalidade, residências, pista de ski, espaço para eventos e um resort all inclusive. Na prática, trata-se de um master plan que combina diferentes linhas de receita e distribui o risco entre usos complementares. Esse desenho ajuda a explicar por que o projeto chamou a atenção do Club Med, que será a âncora hoteleira do complexo e levará para a Serra Gaúcha sua bandeira Exclusive Collection, o selo mais sofisticado da rede francesa no Brasil.
 
Para o Club Med, a aposta faz sentido por pelo menos três motivos. Primeiro, porque Gramado já tem uma demanda consolidada por turismo familiar e multigeracional, exatamente o público que busca conveniência, serviços integrados e experiências que agradem a várias faixas etárias. Segundo, porque a cidade oferece uma imagem de destino aspiracional, capaz de justificar ticket médio mais alto e estadias mais longas. Terceiro, porque a presença da marca ajuda a elevar o padrão percebido de todo o entorno, puxando valor para o mercado imobiliário e para os demais serviços associados. O CEO do Club Med para a América Latina, Janyck Daudet, resumiu bem a lógica ao destacar que o público familiar gera impacto econômico relevante, pois consome mais dentro e fora do resort. Essa é a essência do projeto: não vender apenas quartos, mas capturar a jornada inteira do visitante.
 
O idealizador do complexo é Dody Sirena, empresário reconhecido por sua experiência em entretenimento e gestão de grandes marcas. Sua visão foi justamente misturar o que há de mais forte em hospitalidade com o que existe de mais potente em entretenimento, criando uma plataforma de alto valor agregado. A primeira etapa prevê 20 villas de luxo com VGV estimado entre R$ 130 milhões e R$ 150 milhões, com entrega prevista para o segundo semestre de 2027. No conjunto, o empreendimento pode alcançar VGV total de até R$ 1,5 bilhão. Ou seja, o projeto não depende apenas do hotel para se sustentar: ele se apoia em uma estrutura imobiliária capaz de viabilizar economicamente um destino novo dentro de um destino já consolidado. Para quem acompanha o mercado, esse é o ponto-chave do Gramado resort de R$ 1 bi: o ativo imobiliário deixa de ser coadjuvante e passa a ser motor do negócio.
 

O que essa virada sinaliza para o mercado

A entrada de um projeto como o Sirena altera o patamar de comparação em toda a região. Quando uma cidade recebe uma âncora internacional com posicionamento premium, o mercado local tende a recalibrar preço, produto e público-alvo. Isso vale para terrenos, unidades residenciais, hospedagem e até para operações de alimentação, convenções e lazer. A consequência é o surgimento de um ecossistema mais sofisticado, com maior densidade de serviços e maior apelo para investidores que buscam ativos atrelados ao turismo de alta renda.
 
Além disso, o movimento reforça a ideia de que o lazer deixou de ser um complemento do mercado imobiliário e passou a ser parte central da tese de valor. Em Gramado, o comprador não está adquirindo apenas uma fração de uso ou uma residência de temporada: ele está entrando em um produto que conversa com marca, experiência e escassez territorial. Isso favorece campanhas mais emocionais, modelos de venda mais consultivos e narrativas que conectam retorno econômico à experiência de vida. Em termos de estratégia, é um cenário ideal para quem atua com lançamentos de alto padrão e quer posicionar o empreendimento como peça de um destino, e não apenas como endereço.
 
É por isso que a leitura de mercado vai além do hype. O que está em jogo é uma mudança estrutural no tipo de demanda que Gramado consegue atrair e monetizar. Quanto mais a cidade se consolida como destino de famílias, mais ela abre espaço para operações com escala, luxo e entretenimento, um tripé muito mais compatível com produtos imobiliários complexos do que o antigo modelo de pousadas românticas. E quando esse tripé ganha uma bandeira internacional, o efeito tende a ser multiplicador.
 

Infraestrutura, acesso e limites para crescer

Apesar do entusiasmo, a expansão acelerada também acende alertas importantes. Gramado já tem cerca de 190 hotéis e pousadas, número mais de quatro vezes maior do que em 2020. Esse salto impressiona, mas também pressiona a cidade em frentes sensíveis, como água, energia, mobilidade e capacidade viária. Segundo informações locais, a prefeitura bloqueou a aprovação de novos projetos hoteleiros por enquanto justamente porque há preocupação com a infraestrutura necessária para suportar a nova escala de ocupação. Em um destino em alta, a ausência de planejamento pode virar gargalo rapidamente.
 
O acesso é outro ponto crítico. Hoje, a principal porta de entrada continua sendo o Aeroporto de Porto Alegre, a cerca de 100 quilômetros de distância. Na prática, isso significa transfer, carro alugado ou ônibus para completar o trajeto até a Serra Gaúcha. Para um destino que quer competir no segmento premium, esse deslocamento ainda é um obstáculo relevante, especialmente para famílias com crianças e viajantes que valorizam conveniência. O governador Eduardo Leite mencionou a possibilidade de uma linha de trem ligando as duas cidades em cerca de uma hora, com expectativa de viabilização no início da próxima década. Também há projetos viários em discussão para conectar Gramado ao novo aeroporto de Caxias do Sul, hoje em licitação.
 
Essas iniciativas são fundamentais porque o sucesso de empreendimentos desse porte depende tanto da experiência dentro do destino quanto da chegada até ele. Quando o acesso é difícil, a percepção de exclusividade pode ser prejudicada pela fricção da jornada. Por isso, a região precisa equilibrar crescimento com capacidade de suporte. Não basta anunciar novos hotéis, villas e atrações: é preciso garantir o básico para que a experiência seja compatível com a promessa de valor. Nesse sentido, a discussão sobre infraestrutura não é um detalhe operacional, mas uma condição para que o ciclo de investimento continue saudável e sustentável.
 

Gramado na rota certa para a próxima década

O que se desenha em Gramado é mais do que um boom pontual. A cidade está se reposicionando como um destino de alto desempenho para turismo, entretenimento e desenvolvimento imobiliário. A chegada de nomes como Club Med, além de outras marcas internacionais que observam a região, mostra que o mercado enxerga ali uma combinação rara de força de marca, demanda reprimida e capacidade de monetização. Esse tipo de contexto costuma gerar oportunidades para projetos mais ambiciosos, especialmente quando há escassez de terrenos e forte apelo emocional na compra.
 
Ao mesmo tempo, o avanço exige maturidade de mercado. Se a cidade quer sustentar sua nova fase, precisará resolver acesso, serviços públicos e planejamento urbano com a mesma velocidade com que recebe capital privado. Esse equilíbrio será decisivo para evitar que o crescimento de hoje se transforme em gargalo amanhã. Para investidores e players do setor, a mensagem é clara: Gramado deixou de ser apenas um destino charmoso e virou um laboratório de produto, marca e experiência. Quem entender essa mudança cedo terá mais chances de capturar valor no ciclo que está apenas começando. No fim das contas, a transformação da cidade confirma uma tese poderosa: quando turismo e imobiliário caminham juntos, o resultado pode redefinir por completo a geografia do investimento.
 
Em outras palavras, Gramado está usando seu próprio encanto como alavanca de escala. E isso é uma excelente notícia para quem enxerga o mercado imobiliário como uma combinação de território, desejo e visão de futuro. O novo capítulo da cidade já está sendo escrito — e ele promete ser menos romântico, mais estratégico e muito mais lucrativo.
 

O próximo capítulo já começou

Gramado vive a rara oportunidade de transformar reputação em plataforma de crescimento. Ao atrair um projeto bilionário ancorado por uma marca internacional, a cidade mostra que sabe evoluir sem perder seu apelo original. A diferença é que agora o encanto não está só nas ruas floridas e no clima serrano: ele também aparece na lógica dos negócios, na capacidade de receber famílias e na criação de produtos imobiliários que conversam com um público mais sofisticado.
 
Se a infraestrutura acompanhar o ritmo do capital, a região pode consolidar uma nova referência nacional em turismo integrado ao real estate. E aí o jogo deixa de ser apenas sobre visitantes. Passa a ser sobre legado, valorização e visão de longo prazo — exatamente onde os grandes movimentos do mercado costumam nascer.