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Acontece no mercado imobiliário

Mercado Imobiliário: Impacto da Selic no Alto Padrão

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

15 de outubro de 2025

tempo de leitura:

9 min

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Nos últimos anos, a taxa Selic se manteve elevada, impactando significativamente diversos setores da economia, incluindo o mercado imobiliário de alto padrão. Imóveis acima de R$ 1,5 milhão, anteriormente considerados um porto seguro para investidores, agora enfrentam uma desaceleração nas vendas, à medida que compradores se tornam mais cautelosos e exigem condições vantajosas.
 
A crescente atratividade das rendas fixas e a deterioração da capacidade de financiamento também influenciam as decisões de compra. Isso resulta em um tempo de negociação mais prolongado e em uma reavaliação das opções de investimento, especialmente em imóveis na planta, onde a correção monetária compromete ainda mais a viabilidade financeira. Apesar das dificuldades, alguns indicadores mostram um crescimento nas vendas, embora os lançamentos estejam estagnados.
 
Este cenário convida incorporadoras e investidores a reestruturar suas estratégias e se adaptar às novas realidades do mercado. Para entender melhor esse panorama e as perspectivas futuras, continue lendo o artigo:

Nem o alto padrão está escapando do baque da Selic

A Selic está em um patamar que já dura quase quatro anos, e o impacto dessa taxa elevada se faz sentir em diversos setores, inclusive no mercado imobiliário de alto padrão. O que antes parecia ser um refúgio seguro para investidores e compradores com maior poder aquisitivo agora não é mais tão resistente às flutuações econômicas. Com a alta dos juros, mesmo os imóveis que costumam atrair um público menos dependente de financiamentos começam a ver suas vendas desacelerarem, refletindo um cenário que merece atenção por parte de todos os envolvidos.
 

O Desafio do Mercado de Alto Padrão

O segmento de imóveis acima de R$ 1,5 milhão, tradicionalmente considerado mais resiliente, enfrenta dificuldades inesperadas. Corretores e incorporadoras têm notado uma mudança no comportamento dos potenciais compradores. Segundo Cyro Naufel, diretor da imobiliária Lopes, os clientes estão cada vez mais cautelosos e exigindo condições mais vantajosas para considerar a compra de um novo imóvel. Este fator se deve em grande parte ao retorno das rendas fixas, que oferecem segurança e um retorno considerável diante das taxas de juros atuais.
 
Num cenário onde o comprador já espera um pedágio financeiro significativo, a expectativa é de que, além dos preços, haja um verdadeiro leilão de condições que favoreçam o comprador. As vendas, que já não eram rápidas em comparação com outros segmentos do mercado, experimentam uma devida ampliação no tempo de negociação. O que antes poderia levar em torno de 30 dias agora se estende para dois ou até três meses.
 

A Influência da Selic nas Vendas Imobiliárias

As consequências da Selic elevada vão além da simples desaceleração das vendas; elas também afetam a dinâmica da construção de novos empreendimentos. De acordo com Peixoto Accyoli, CEO da rede de franquias imobiliárias RE/MAX Brasil, o impacto da Selic é particularmente evidente na compra de imóveis na planta. Aqui, o consumidor considera não apenas a taxa de juros, mas também o efeito da correção monetária durante o ciclo de construção, que pode durar entre 18 e 36 meses. Durante esse período, o saldo devedor é reajustado pelo INCC, que já acumula uma alta significativa de 7% em 12 meses.
 
Este cenário leva muitos compradores a reavaliar suas opções. A possibilidade de deixar o dinheiro rendendo na renda fixa e adquirir o imóvel na planta – possivelmente a um preço mais baixo ao final do período de construção – torna-se uma proposta atraente. Além disso, as simulações da RE/MAX mostram que o affordability, ou a capacidade de pagamento para financiar imóveis, deteriorou-se substancialmente. Por exemplo, a renda mensal mínima necessária para financiar uma propriedade de R$ 2 milhões aumentou de R$ 52.948 em 2023 para R$ 61.009 neste ano.
 

Números e Tendências do Mercado Imobiliário

Os impactos desse novo contexto econômico começam a se refletir nos números reportados pelas incorporadoras. A Mitre mostrou uma queda de 13% nas vendas líquidas no terceiro trimestre em comparação com o ano anterior, enquanto a Melnick relatou uma redução de 9% nas vendas. Esses dados indicam que o mercado de alto padrão não apenas enfrenta desafios, mas que a pressão sobre os preços e a comercialização de estoques está se intensificando.
 
Os relatórios do BTG Pactual destacam que a situação é agravada pela lenta movimentação dos estoques disponíveis. Projetos icônicos, como o Daslu Residences, que despertaram tanto interesse anteriormente, estão vendo seus níveis de venda estagnar. Por outro lado, os dados agregados do setor ainda revelam um crescimento de 34,3% nas vendas de imóveis acima de R$ 1,5 milhão, embora os lançamentos estejam evidenciando uma tendência de estagnação. Este fenômeno cria uma dualidade intrigante no mercado, sugerindo que enquanto alguns aspectos permanecem robustos, a saúde geral do segmento de alto padrão está sob vigilância constante.
 

Impacto nas Decisões dos Compradores

É importante ressaltar que os compradores de alto padrão, muitas vezes, não estão na iminência de uma decisão de compra. Eles geralmente possuem uma estabilidade financeira que lhes permite aguardar melhores oportunidades. Guilherme Werner, sócio da consultoria Brain, enfatiza essa dinâmica ao observar que os clientes desse perfil não estão comprando por necessidade imediata, mas buscando uma oportunidade vantajosa. A estabilidade do que já foi comprado nos últimos 12 meses sugere que, enquanto o mercado possa estar em crise, aqueles que já adquiriram imóveis não estão tão preocupados com as oscilações.
 

Possíveis Caminhos e Perspectivas

À medida que o mercado de alto padrão navega por essas águas turbulentas, é crucial que incorporadoras e investidores ajustem suas expectativas e estratégias. Observando o cenário atual, é possível que se desenvolvam novas abordagens que tornem a aquisição de imóveis mais atraente. Isso pode incluir ofertas mais flexíveis, incentivos para a compra e colaborações com instituições financeiras para facilitar o acesso ao crédito.
 
Enquanto isso, os compradores precisam permanecer informados sobre as tendências do mercado e fazer escolhas que reflitam tanto suas necessidades atuais quanto seu planejamento financeiro a longo prazo. Considerar o timing das compras, explorar as opções de financiamento e se manter atualizado sobre as novas propriedades lançadas podem fazer toda a diferença nesse contexto.
 

O que o futuro reserva?

O mercado imobiliário de alto padrão está em um ponto de inflexão, desafiado por fatores externos como taxas de juros elevadas e um cenário econômico incerto. Contudo, a resiliência demonstrada por este segmento ao longo dos anos indica que, com as estratégias corretas, ele pode não apenas se adaptar, mas também florescer.
 
Em resumo, mesmo o alto padrão não está escapando do baque da Selic. Ao observarem as mudanças no comportamento dos compradores e as tendências de mercado, tanto incorporadoras quanto investidores podem encontrar caminhos inovadores para navegar por esses tempos desafiadores. O mercado imobiliário de alto padrão pode não apenas sobreviver, mas sair mais forte e mais preparado para futuras adversidades.