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Acontece no mercado imobiliário

No Bairro dos Jardins, falta opção gastronômica

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

15 de setembro de 2025

tempo de leitura:

9 min

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O bairro dos Jardins, um dos mais icônicos de São Paulo, enfrenta uma intensa batalha no setor gastronômico devido à escassez de espaços disponíveis para novos restaurantes. A crescente verticalização e os altos custos imobiliários têm pressionado pequenos empreendimentos, colocando em risco sua sustentabilidade. Investidores estão adquirindo locais tradicionalmente ocupados por bistrôs e cafés, levando a uma corrida desesperada por imóveis viáveis e acessíveis.
 
Além da escalada nos aluguéis, que já alcançam valores exorbitantes, os empreendedores enfrentam desafios como restrições de zoneamento, insegurança e a falta de contratos de longo prazo, o que inviabiliza muitos negócios. Apesar das adversidades, ainda há esperança de revitalização na cena gastronômica, com a expectativa de reclassificação do uso do solo que poderia permitir a instalação de novos estabelecimentos.
 
A adaptabilidade e inovação dos empresários serão cruciais para reverter este cenário desafiador e manter a essência vibrante do Jardins: descubra as lutas e oportunidades que moldam a gastronomia paulistana!

O bairro dos Jardins, um dos mais nobres de São Paulo, tem se tornado um verdadeiro campo de batalha para os empreendedores do setor gastronômico. O que muitos não sabem é que, ao mesmo tempo em que esse local é um dos mais desejados para abrir um restaurante, ele enfrenta uma crise de espaço que compromete a sustentabilidade dos pequenos negócios. Entre a pressão das incorporadoras e os altos custos imobiliários, o Jardins pode estar se afastando de seu status de polo gastronômico.
 

O crescimento vertical e a redução de espaços

Nos últimos anos, o fenômeno da verticalização tem tomado conta do Jardins. Investidores e construtoras têm adquirido imóveis que antes eram ocupados por pequenos estabelecimentos, como bistrôs e cafés, para dar lugar a novos edifícios. Esse cenário não apenas diminui o número de vagas disponíveis para restaurantes, mas também aumenta a concorrência para aqueles que ainda resistem. Com isso, os empresários do ramo alimentício enfrentam uma verdadeira caça ao tesouro: encontrar um espaço viável que possa abrigar suas operações.
 
O corretor Daniel Araújo, da Araújo Imóveis, menciona que a situação se tornou crítica. Com uma demanda crescente, os aluguéis dispararam, tornando-se inviáveis para os novos comércios. “Antes da pandemia, era possível alugar espaços a R$ 100-R$ 120 o metro quadrado. Hoje, nas áreas menos nobres, não sai por menos de R$ 150; nas vias mais disputadas, passa de R$ 200,” diz Araújo. Essa escalada nos preços acaba por forçar muitos empresários a repensarem seus planos e até mesmo a abrirem mão de seus negócios.
 

A luta diária dos donos de restaurantes

Um exemplo claro dessa luta é a história de Juliana Duarte, que investiu R$ 2 milhões para abrir um restaurante no Jardim Paulista. Menos de dois anos depois, devido a um aumento de 50% no aluguel, ela viu-se obrigada a “entregar o ponto”. “O Jardins está na lista dos bairros que mais abrem e fecham restaurantes,” afirma. O que resta é uma incerteza que permeia o ar e torna o ambiente empresarial ainda mais desafiador.
 
O problema não se limita apenas ao custo do aluguel. A insegurança também se tornou um fator impactante, especialmente para quem opera em regiões mais vulneráveis. Juliana, por exemplo, foi assaltada cinco vezes em um período de 18 meses. O cenário é tão crítico que muitos proprietários preferem deixar seus imóveis vazios, aguardando propostas das incorporadoras, o que resulta em um número elevado de imóveis disponíveis e a sensação de insegurança nos arredores.
 

As restrições de zoneamento no Jardins

Além das questões financeiras, as restrições de zoneamento também complicam a vida dos empreendedores de restaurantes. Grande parte das ruas e avenidas do Jardins é classificada como residencial, o que impede a instalação de bares e restaurantes em diversas áreas. As atividades são restritas às zonas mistas e corredores, limitando a operação de novos estabelecimentos. Na prática, isso significa que, mesmo que um empresário encontre um imóvel adequado, ele pode ser impossibilitado de utilizá-lo para o fim desejado.
 
A expectativa de reclassificação das ruas do bairro nas próximas atualizações do Plano Diretor é um ponto de esperança para os empresários. Se isso acontecer, pode haver uma expansão na permissibilidade do uso do solo, permitindo a instalação de novos restaurantes e bares. Essa reclassificação seria vital para revitalizar a cena gastronômica do Jardins, que, há uma década, era vista como um polo de inovação e criatividade culinária.
 

O papel das incorporadoras e seus impactos

As incorporadoras exercem um papel significativo na dinâmica do mercado imobiliário do Jardins. De acordo com Lacides de Souza, consultor da Abrasel, “hoje o proprietário só quer locar por no máximo quatro anos.” Isso ocorre porque muitos deles estão à espera de propostas lucrativas das incorporadoras, que oferecem valores acima do mercado. A consequência é que os novos estabelecimentos de alimentação têm dificuldade em obter contratos de longo prazo, essenciais para retornar sobre seus investimentos.
 
Esse cenário, se mantido, pode provocar uma transformação no perfil do Jardins. Restaurantes que antes atraíam público diversificado podem começar a escassear, dando lugar a empreendimentos que focam em moradia e comércio de alto padrão. Isso envolve uma perda cultural significativa, uma vez que o bairro já foi reconhecido por sua diversidade e inovação no setor.
 

Perspectivas futuras para a gastronomia no Jardins

Mesmo diante desse cenário desafiador, o Jardins se mantém como um dos locais mais cobiçados para a abertura de novos estabelecimentos. A habilidade dos empreendedores em se adaptarem e buscarem alternativas pode ser a chave para a sobrevivência nesse mercado competitivo. Existe uma oportunidade crescente para aqueles que ousam inovar, seja criando novas experiências gastronômicas ou oferecendo serviços que atraem um público específico.
 
Oferta de produtos diferenciados e um bom planejamento estratégico são fundamentais para o sucesso nesse ambiente restrito. Além disso, ações colaborativas entre os empresários locais, como eventos gastronômicos e festivais, podem ajudar a revitalizar a cena e a atrair mais clientes.
 
Os desafios são grandes, mas a criatividade, resiliência e inovação dos donos de restaurantes podem dar vida nova à gastronomia do Jardins. Se as condições melhorarem e a legislação acompanhar as mudanças necessárias, o bairro pode recuperar seu status de polo gastronômico de excelência.
 
Sendo assim, a história do Jardins ilustra perfeitamente como as pressões do mercado e a necessidade de adaptação são partes intrínsecas do mundo dos negócios. Os restaurantes enfrentam desafios diários, mas, ao mesmo tempo, têm à disposição um universo vasto de oportunidades para reinventar-se. Que venham novas histórias de sucesso e resiliência, mantendo viva a essência gastronômica que sempre caracterizou o Jardins.
 
Portanto, enquanto o futuro pode parecer incerto, o desejo de manter viva a cultura e a gastronomia do Jardins é mais forte do que os obstáculos. Com esperança e inovação, esse bairro pode continuar sendo sinônimo de boa comida e experiências inesquecíveis.