No mercado imobiliário brasileiro, uma transformação significativa está em curso: a escassez de herdeiros dispostos a assumir posições de liderança como CEOs em empresas familiares. Enquanto a demanda por imóveis cresce, novos desafios surgem devido a um desinteresse evidente das novas gerações em seguir os passos de seus pais, refletindo uma mudança cultural mais ampla. Os jovens de hoje buscam propósitos e experiências que vão além do legado familiar tradicional, preferindo se engajar em causas sociais ou inovações. Especialistas destacam que essa tendência exige que as empresas adotem estratégias criativas para envolver os herdeiros e explorar suas paixões.
Além disso, a falta de planejamento sucessório pode provocar conflitos familiares e desvio de negócios, enfatizando a necessidade de uma governança profissionalizada. Exemplos positivos de sucessão mostram que com a abordagem correta é possível manter a identidade familiar enquanto se incorpora frescor e inovação. Quer saber mais sobre como navegar essa nova realidade? Confira a íntegra do artigo abaixo:
No mercado imobiliário, falta herdeiro querendo virar CEO
O cenário do mercado imobiliário brasileiro está em transformação. Enquanto a demanda por imóveis continua a crescer e novas oportunidades surgem a cada dia, um problema significativo começa a afetar as empresas do setor: a falta de herdeiros dispostos a assumir as rédeas como CEOs nas corporações familiares. Este fenômeno, que pode parecer isolado, reflete uma mudança cultural mais ampla que está ocorrendo entre as novas gerações, onde o legado tradicional não é mais visto como um caminho obrigatoriamente desejável.
O desinteresse das novas gerações
Historicamente, as empresas familiares no Brasil foram vistas como entidades que passavam de pai para filho, uma continuidade quase sagrada. No entanto, de acordo com especialistas, essa tradição tem esbarrado em uma realidade bem diferente: os jovens, hoje, estão mais preocupados em encontrar seus próprios caminhos, em vez de simplesmente continuar o que foi iniciado pela geração anterior. Essa tendência é amplamente discutida por Rodrigo Pontes, sócio do KLA Advogados, que observa que a área de sucessões cresceu consideravelmente nos últimos anos. A nova geração não se sente mais automaticamente obrigada a seguir os passos de seus pais.
Leonardo Schneider, vice-presidente do Secovi Rio e membro da terceira geração da Apsa, ilustra bem essa situação ao mencionar que sua filha mais velha não demonstrou interesse em seguir na empresa e optou por estudar administração nos Estados Unidos. Este tipo de relato revela um padrão: os filhos, em vez de se sentirem atraídos pelo legado familiar, buscam um propósito maior na vida, muitas vezes ligado a causas sociais ou inovação – algo que o mercado imobiliário tradicional nem sempre consegue oferecer.
A estratégia de engajamento
Diante deste desinteresse crescente, como as empresas do setor imobiliário estão lidando com a sucessão? Muitas delas têm recorrido a táticas criativas para tentar engajar os herdeiros. A abordagem de Leonardo, que pediu à sua filha que desenvolvesse um projeto sobre pets para condomínios, é um exemplo notável de como as conversas podem ser moldadas em torno das paixões dos jovens. Ao invés de impor a tradição, ele procura conectar a empresa a temas que ressoam com os interesses da nova geração.
Esse tipo de estratégia é vital, pois os jovens de hoje valorizam experiências e propósitos que vão além do mero lucro financeiro. Eles querem se sentir parte de algo maior. O que antes era uma obrigação tornou-se uma negociação, onde os valores familiares precisam ser revendidos e ressignificados. Caso contrário, a possibilidade de um conflito familiar na hora da transição torna-se ainda mais alarmante.
A importância do planejamento sucessório
Dentro desse contexto de transformação, o planejamento sucessório se torna imprescindível. Se a nova geração não demonstra interesse, a solução pode ser profissionalizar a gestão do negócio. Isso muitas vezes envolve a definição de um novo modelo de governança. O foco não deve ser apenas na passagem do bastão, mas sim em garantir que a visão do fundador continue a existir através de uma nova liderança que traga frescor e inovação.
De acordo com Vanessa Dantas, sócia do Amatuzzi Advogados, o desinteresse dos herdeiros pode levar a situações complicadas, onde, com a morte do fundador, os herdeiros entram em conflito e o negócio perde direção. Isso acontece frequentemente quando não há um planejamento adequado, resultando em um forte impacto negativo sobre a empresa. Portanto, ter uma estrutura sólida e uma política de remuneração que alinhe os interesses a longo prazo é essencial.
Casos de sucesso e exemplos inspiradores
Ainda assim, há histórias que provam que é possível transitar por esse desafio. Algumas incorporadoras, como Cury e Cyrela, mostram que a passagem do legado familiar para a próxima geração pode ser feita com sucesso. Casos de sucessores como Fábio e Ronaldo Cury e Leandro Melnick exemplificam que, com um histórico de atuação na empresa e conhecimento da cultura organizacional, é possível manter e até ampliar o legado familiar. Hugo Grassi, consultor imobiliário, destaca que esses casos de sucesso são fundamentais para inspirar futuras gerações.
Entretanto, é fundamental ressaltar que forçar a sucessão fora da vontade genuína dos herdeiros pode resultar em grandes perdas. Portanto, o mais saudável para a perenidade do negócio é apostar em uma segunda linha de gestão, que permita o amadurecimento de executivos profissionais, ao mesmo tempo em que mantém a identidade familiar. A procrastinação nesse processo pode levar a consequências indesejadas para a empresa familiar, muitas vezes dilapidando o que foi construído ao longo de décadas.
A inquietude do empreendedorismo
Outra realidade que precisa ser considerada é que, em muitos casos, os filhos não abandonam o negócio por desinteresse, mas sim por um desejo de empreender de maneira independente. Joseph Nigri, filho do fundador da Tecnisa, é um exemplo disso. Após passar por todo o processo de sucessão, ele decidiu sair da empresa familiar para iniciar seu próprio negócio. Mesmo assim, ele mantém um papel no conselho da Tecnisa, mostrando que é possível haver coexistência entre inovações pessoais e legados familiares.
Essas histórias nos levam a refletir sobre o que significa realmente ser um sucessor em um ambiente tão dinâmico e em constante mudança. Se o setor imobiliário quiser realmente prosperar, será necessário repensar a forma como vemos a sucessão e o legado familiar.
Refletindo sobre o futuro
Para finalizar, é importante salientar que a questão da sucessão no mercado imobiliário vai muito além de uma simples troca de cadeiras. Envolve um entendimento profundo das novas gerações e suas aspirações. A falta de herdeiros interessados em se tornar CEOs não é um sinal de fracasso, mas um chamado para que as empresas adotem soluções inovadoras e criativas que atendam às expectativas desses jovens. A adaptação e a renovação são chaves para a sobrevivência e prosperidade das corporações do setor.
Dessa forma, o mercado imobiliário está em um momento importante de reavaliação, onde as lições aprendidas podem moldar não só o presente, mas também o futuro das famílias empresariais. Com o planejamento correto, empatia e intenção genuína de conectar os valores familiares aos sonhos dos jovens, é possível não apenas perpetuar os negócios, mas transformá-los em algo ainda mais significativo e relevante para a sociedade.