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Acontece no mercado imobiliário

Selic cai, mas crédito imobiliário segue caro

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

22 de junho de 2026

tempo de leitura:

15 min

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A Selic voltou a cair e chegou a 14,25% ao ano, mas o alívio esperado ainda não apareceu de forma prática para quem quer comprar um imóvel ou financiar um novo empreendimento. Mesmo com o terceiro corte consecutivo do Banco Central, os bancos seguem precificando risco, inflação, captação de recursos e cenário econômico para definir as condições do financiamento, o que mantém parcelas altas e maior exigência de entrada. Ao mesmo tempo, o mercado imobiliário vive outras transformações importantes: Curitiba dispara nos lançamentos de estúdios, a reforma tributária pode alterar o preço final dos imóveis, os custos das obras pressionam o Minha Casa Minha Vida e empreendimentos de alto padrão usam quadras de tênis como diferencial competitivo. Neste artigo, você vai entender por que a queda da Selic ainda pesa pouco no bolso do comprador e quais movimentos estão redesenhando as estratégias do setor imobiliário no Brasil:

A Selic caiu, mas o mercado ainda joga em campo duro

Na última semana, o Banco Central voltou a reduzir a taxa básica de juros, mas o movimento ainda não foi suficiente para mudar de forma imediata a realidade de quem depende de financiamento. Na prática, o crédito imobiliário continua pressionado por uma combinação de inflação, custo de captação, percepção de risco e cenário econômico. Isso significa que, embora a direção da política monetária seja positiva, o caminho até juros mais acessíveis nos bancos tende a ser mais lento do que o noticiário sugere.

Para compradores, isso se traduz em parcelas mais altas, exigência maior de entrada e análise de crédito mais rigorosa. Para incorporadoras e construtoras, o ambiente segue exigindo planejamento, precificação cuidadosa e leitura estratégica da demanda. E enquanto a Selic cai aos poucos, outros fatores do setor também avançam em ritmos diferentes, como o crescimento dos estúdios em Curitiba, os impactos da reforma tributária e a pressão dos custos sobre o Minha Casa Minha Vida. A seguir, veja como cada uma dessas forças está redesenhando o mercado imobiliário brasileiro.

Curitiba lidera lançamentos de estúdios no Brasil

Curitiba se firmou como um dos mercados mais aquecidos para imóveis compactos no país. Segundo dados de inteligência de mercado, os estúdios representaram uma fatia majoritária dos lançamentos residenciais da cidade no primeiro trimestre, sinalizando uma mudança importante no perfil da oferta local. Em vez de apostar apenas em unidades tradicionais, o mercado curitibano vem respondendo à demanda por praticidade, mobilidade e ticket de entrada mais acessível para investidores e compradores finais.

Esse movimento tem explicação clara: a capital paranaense combina revitalização da região central, boa conectividade urbana e presença relevante de estudantes, jovens profissionais e investidores atentos à locação de curta e média duração. Com isso, os imóveis compactos se tornaram uma solução eficiente tanto para morar quanto para gerar renda. O metro quadrado dos estúdios também chamou atenção, reforçando que o segmento deixou de ser apenas uma tendência de nicho e passou a ocupar espaço estratégico nas incorporadoras.

Há ainda um fator urbanístico decisivo. Mudanças na legislação e maior flexibilidade em relação a vagas de garagem e áreas comuns ampliaram a viabilidade desse tipo de empreendimento. Na prática, isso abriu espaço para projetos mais enxutos, com boa liquidez e forte apelo de mercado. Para quem atua com vendas, o desafio agora é mostrar que o valor não está apenas no tamanho da unidade, mas na combinação entre localização, conveniência e potencial de valorização.

Centro concentra grande parte dos imóveis compactos

Boa parte dos novos estúdios está concentrada em áreas centrais, próximas a universidades, serviços e transporte. Esse desenho atende consumidores que valorizam deslocamento curto, rotina prática e acesso fácil à infraestrutura da cidade. Ao mesmo tempo, favorece investidores que buscam ocupação constante e menor vacância, sobretudo em operações de locação temporária e por assinatura.

Outro ponto relevante é que os imóveis compactos funcionam como porta de entrada para novos investidores. Como exigem investimento inicial menor que unidades maiores, eles ampliam o alcance comercial de quem deseja entrar no mercado sem assumir um compromisso financeiro tão pesado. Em cidades com forte vocação urbana, esse formato tende a seguir relevante, desde que a demanda acompanhe o ritmo dos lançamentos e sustente a ocupação ao longo do tempo.

Reforma tributária pode mudar o preço final dos imóveis

A reforma tributária promete mexer não só com a carga de impostos, mas também com a forma como os imóveis serão anunciados e negociados. A partir da adoção do IBS e da CBS, o preço final de uma operação pode depender de variáveis como tipo de imóvel, condição de novo ou usado, etapa de transição e perfil tributário dos envolvidos. Isso torna a precificação mais sensível e, em alguns casos, menos direta do que o consumidor está acostumado a ver hoje.

Na prática, um imóvel semelhante ao outro pode acabar tendo custo total diferente na ponta, porque a composição tributária não será necessariamente igual. Isso exige mais transparência nos anúncios imobiliários e uma postura mais consultiva por parte de corretores e imobiliárias. Não basta informar o valor de vitrine: será preciso explicar como aquele preço se forma, quais tributos entram na conta e qual desembolso real o comprador deve considerar antes de fechar negócio.

Esse cenário também atinge a comissão de corretagem e os documentos usados nas operações. Contratos de intermediação, compromissos de compra e venda e materiais comerciais podem precisar de revisão para contemplar as novas regras. Para o mercado, a grande virada está menos na burocracia e mais na comunicação. Quem conseguir traduzir o impacto tributário com clareza ganhará confiança do cliente e reduzirá ruídos durante a jornada de compra.

Custos das obras pressionam imóveis do Minha Casa Minha Vida

Enquanto a demanda segue forte, os custos de construção continuam apertando as margens do setor, especialmente no segmento econômico. O avanço do Custo Unitário Básico em 12 meses mostra que materiais e insumos ficaram mais caros, e isso pesa com intensidade maior nos empreendimentos voltados ao Minha Casa Minha Vida. Como esses projetos trabalham com limites de preço e dependem de viabilidade muito ajustada, qualquer elevação adicional exige revisão cuidadosa de orçamento e produto.

Esse é um ponto central para incorporadoras que atuam nesse nicho. Diferentemente de mercados de maior renda, em que parte do custo pode ser repassada com mais facilidade, o segmento econômico tem menos espaço para absorver aumentos. Quando a obra encarece, a conta aperta em toda a cadeia: margem menor, necessidade de controle mais rígido e risco maior de comprometer a rentabilidade. Ainda assim, o bom momento do Minha Casa Minha Vida não desapareceu; ele apenas ficou mais sensível a gestão, eficiência e timing de lançamento.

O outro lado da moeda é que o programa continua em expansão, com orçamento reforçado e novas faixas de renda impulsionando a procura. Isso atraiu empresas que antes atuavam em outros perfis de produto e agora enxergam oportunidade na habitação popular. O desafio, portanto, não é apenas vender mais, mas construir com inteligência, precificar com precisão e manter o projeto dentro de um equilíbrio que preserve acessibilidade sem sacrificar a saúde financeira da operação.

Selic cai, mas crédito imobiliário segue caro

A redução recente da Selic para 14,25% ao ano foi um sinal importante do Banco Central, mas ainda insuficiente para destravar o financiamento imobiliário no ritmo que o mercado esperava. Embora a queda da taxa básica seja um alívio gradual para a economia, os bancos não repassam esse movimento de forma automática. Eles também consideram inflação, risco de inadimplência, custo de captação e cenário macroeconômico antes de definir as condições finais das linhas de crédito.

Na prática, isso mantém o financiamento oneroso e limita o acesso de parte dos compradores. Mesmo com a melhora na trajetória dos juros, o consumidor ainda encontra parcelas elevadas, exigência maior de entrada e aprovação mais criteriosa. Para as empresas, o efeito também é relevante: o custo do capital segue alto, o que reduz apetite por novos projetos, encarece a expansão e pode atrasar decisões de investimento. O resultado é um mercado que avança, mas ainda com freios importantes.

Outro ponto que ajuda a explicar o cenário é a fonte de recursos do crédito habitacional. Com a Selic elevada, investimentos de renda fixa se tornam mais atrativos e podem reduzir a atratividade da poupança, uma das bases do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo. Quando a captação aperta, o crédito também fica mais restrito. Em resumo, a queda dos juros é uma boa notícia, mas ainda não virou uma liberação total para o setor. O alívio, por enquanto, é mais sinal de tendência do que de resultado concreto.

Para o comprador, a mensagem é simples: vale acompanhar o movimento da política monetária, mas sem contar com uma mudança brusca no financiamento no curto prazo. Para as imobiliárias, o momento pede argumentação técnica, simulação bem feita e clareza comercial. Entender o comportamento da Selic ajuda, mas interpretar o impacto real no bolso do cliente é o que faz diferença na negociação.

Quadras de tênis valorizam imóveis de alto padrão

No segmento de alto padrão, o diferencial já não está apenas no acabamento ou na localização. Cada vez mais, o que pesa na percepção de valor são os espaços de lazer e a experiência completa oferecida pelo empreendimento. Nesse cenário, as quadras de tênis voltaram a ganhar destaque como símbolo de sofisticação, exclusividade e estilo de vida. A tendência acompanha o crescimento de modalidades como beach tennis e pickleball, mas o tênis mantém um apelo clássico que conversa com públicos mais exigentes.

Para incorporadoras, incluir uma quadra oficial significa ampliar o posicionamento do projeto e criar um argumento comercial forte. O lazer deixa de ser um item complementar e passa a funcionar como assinatura do produto. Além da prática esportiva, o espaço reforça convivência, bem-estar e a sensação de morar em um ambiente semelhante ao de um clube privado. Em muitos empreendimentos, a quadra se integra a academias, piscinas, spas e áreas sociais, formando um ecossistema de alto valor percebido.

As quadras de saibro, em especial, elevam ainda mais essa experiência, embora exijam manutenção frequente e áreas maiores. Por isso, costumam aparecer em condomínios mais completos ou em projetos de segunda residência. O ponto-chave para o mercado é que o comprador desse perfil compra muito mais do que metros quadrados: ele compra rotina, status, conveniência e identidade. E, nesse jogo, a estrutura de lazer pode ser decisiva para fechar negócio.

Virando o jogo no mercado imobiliário

O mercado imobiliário brasileiro está vivendo uma fase de transição em várias frentes ao mesmo tempo. A Selic recua, mas o crédito ainda custa caro. A reforma tributária promete mudar a forma de precificar imóveis. Os custos da construção apertam a margem de projetos econômicos. E, ao mesmo tempo, o segmento de alto padrão aposta em diferenciais de lifestyle para se destacar. Para quem atua no setor, o recado é claro: vencer esse momento exige leitura de contexto, estratégia e adaptação rápida.

Nesse ambiente, quem entende a jornada do comprador ganha vantagem competitiva. Isso vale para explicações mais técnicas sobre crédito imobiliário, mas também para posicionamento de produto, comunicação de valor e gestão de estoque. O mercado não está parado; ele está se reorganizando. E, como em toda fase de transformação, as empresas que dominam informação e executam com precisão tendem a avançar na frente.

Seja no financiamento, na tributação, no custo de obra ou no produto de alto padrão, a lógica é a mesma: informação bem interpretada vira decisão melhor. E decisão melhor vira venda mais segura, cliente mais confiante e operação mais saudável. No fim das contas, o setor não precisa apenas de mais estímulo; precisa de mais inteligência para transformar cenário em oportunidade.