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Acontece no mercado imobiliário

Curadoria em arquitetura: a fórmula de Amanda Ferber

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

12 de junho de 2026

tempo de leitura:

15 min

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Quando Amanda Ferber criou um perfil no Instagram para reunir referências de arquitetura, a ideia era apenas compartilhar projetos que admirava. Anos depois, o que começou como uma pasta digital de inspirações virou o Architecture Hunter, uma plataforma com mais de 3 milhões de seguidores, audiência majoritariamente internacional e força suficiente para atrair convites de nomes como a equipe de Barack Obama. O diferencial esteve em uma escolha simples, mas estratégica: publicar em inglês desde o início, ampliar o olhar para obras do mundo todo e manter uma linha editorial independente, sem misturar curadoria com publieditoriais de projetos. Ao longo dessa trajetória, Amanda saiu do anonimato, estruturou uma operação com sócios, lançou premiações e eventos próprios e transformou repertório estético em negócio. Neste artigo, você vai entender como essa virada aconteceu, por que a independência editorial se tornou seu maior ativo e quais movimentos fizeram essa história ganhar escala com cara de case global:

O início da curadoria

O ponto de partida da trajetória de Amanda Ferber parece pequeno à primeira vista, mas carrega uma lição poderosa para quem trabalha com posicionamento digital: consistência vence improviso. Ainda na faculdade de arquitetura, ela criou um perfil no Instagram para guardar e compartilhar projetos que chamavam sua atenção. Não havia plano de negócios, nem meta de audiência, muito menos uma tese sobre escalar um veículo global. Havia apenas olhar apurado, curiosidade e uma vontade genuína de organizar referências com um filtro próprio. Essa primeira fase foi decisiva porque transformou uma rede social em um espaço de autoria. Em vez de repostar imagens sem contexto, Amanda desenvolveu uma linguagem visual reconhecível, um repertório coerente e uma sensibilidade editorial que fazia o público voltar.

O detalhe que ajudou a acelerar esse processo foi a escolha de publicar em inglês. À época, isso não era uma jogada de marketing refinada, mas uma solução intuitiva para ampliar alcance e dialogar com os autores dos projetos que ela admirava. O efeito foi imediato: a curadoria em arquitetura deixou de falar só com brasileiros e passou a circular entre profissionais e entusiastas de vários países. Esse gesto simples reposicionou o conteúdo para um patamar internacional, sem perder a identidade. Enquanto muitos perfis buscavam volume, Amanda apostava em seleção. E é justamente aí que mora o valor da boa curadoria: ela não tenta mostrar tudo, mas sim mostrar o melhor com critério, consistência e intenção.

Durante toda a graduação, ela manteve o perfil de forma anônima, inclusive no período em que estagiou no studio mk27, de Marcio Kogan. Essa discrição deu tempo para o projeto amadurecer longe da ansiedade por validação. Quando o Architecture Hunter chegou a 1 milhão de seguidores, em 2017, a construção já estava sólida o bastante para sustentar escala. E, ainda assim, muita gente no Brasil nem imaginava que o conteúdo era produzido por uma jovem arquiteta brasileira. Essa assimetria entre origem e percepção ajudou a criar uma aura de mistério que fortaleceu a marca. A plataforma parecia maior do que a soma de seus posts, e isso não aconteceu por acaso: aconteceu porque a curadoria foi tratada como linguagem, e não como catálogo.

De perfil a negócio global

Quando Amanda se formou, em 2018, o jogo mudou de forma definitiva. Ela passou a aparecer em eventos da Semana de Design de São Paulo como fundadora do Architecture Hunter, e essa presença pública revelou o rosto por trás de uma operação que já tinha credibilidade internacional. A surpresa do mercado foi sintomática: poucos esperavam que um dos maiores perfis de arquitetura do mundo tivesse sido criado por alguém tão jovem e, sobretudo, no Brasil. Essa virada mostra como a autoridade digital pode anteceder a autoridade institucional. Em outras palavras, primeiro vem o repertório, depois a exposição. E foi exatamente assim que a plataforma cresceu.

A partir daí, a conta deixou de ser apenas um lugar de inspiração e passou a funcionar como um ativo de mídia. Marcas começaram a procurar o projeto, e a equipe passou a produzir conteúdos exclusivos sobre lançamentos e eventos do setor. Mas o crescimento só foi sustentável porque a fundadora definiu desde cedo uma linha vermelha: os projetos curados continuariam orgânicos, sem cobrança para serem publicados. Essa decisão preservou a confiança do público e evitou que a plataforma se tornasse um mural publicitário. Em um mercado em que credibilidade é tudo, a curadoria em arquitetura virou o principal diferencial competitivo.

Em 2020, veio a próxima camada da expansão: vídeo, narrativa audiovisual e estrutura empresarial. Amanda percebeu que imagens estáticas já não eram suficientes para aprofundar a experiência do público e decidiu investir em filmes capazes de revelar processos, contextos e atmosferas. Foi nesse movimento que ela conheceu os sócios Luiz Ferriani, à frente do audiovisual, e Matheus Gait, na área de negócios. A chegada deles permitiu estruturar uma operação mais robusta, com equipe de conteúdo, financeiro e comercial, sem tirar Amanda do centro criativo. Isso é relevante porque muitos projetos digitais morrem justamente quando o fundador precisa escolher entre crescer e manter qualidade. No caso dela, a solução foi profissionalizar sem diluir a essência.

Independência editorial como diferencial

Em um ambiente saturado por anúncios disfarçados de conteúdo, a independência editorial virou um ativo raro. Amanda afirma que a plataforma não cobra para publicar projetos de arquitetura e interiores; as parcerias comerciais são direcionadas a marcas, e não a obras ou escritórios. Essa separação protege o olhar da curadoria e sustenta a confiança construída ao longo de anos. Para o público, isso significa que o que aparece no feed foi escolhido por mérito, não por pagamento. Para os parceiros, significa associar a marca a uma mídia com reputação, e não apenas com alcance. É uma equação elegante, mas difícil de sustentar quando o negócio cresce.

Esse compromisso também explica por que a plataforma consegue dialogar com profissionais de diferentes países e manter uma rede internacional de relacionamentos tão ativa. Sempre que viaja, Amanda costuma esticar a agenda para visitar obras, escritórios e arquitetos. Essa prática, repetida ao longo dos anos, criou um ecossistema de confiança que vai além da audiência. Ela transformou presença em capital relacional. E capital relacional, no mundo da arquitetura, vale tanto quanto tráfego. A cada visita, cada evento e cada conversa, a marca ampliava sua capacidade de abrir portas para exclusivas, colaborações e novos projetos. Esse é um dos segredos da escala: não depender apenas do algoritmo, mas construir uma comunidade real ao redor da visão editorial.

Outro ponto importante é que a plataforma nunca perdeu o senso de missão. O crescimento financeiro veio, mas não sequestrou a identidade da marca. Ao contrário: a expansão passou a ser guiada pela mesma lógica da origem — selecionar, aprofundar e inspirar. Quando o conteúdo nasceu como referência, ele podia se manter leve; quando virou negócio, precisou provar que essa leveza também gerava valor. E gerava. O resultado foi um modelo de mídia independente em que reputação, estética e negócios caminham juntos sem se anularem.

Escala, eventos e novas fontes de receita

Com a base editorial consolidada, Amanda e os sócios começaram a criar iniciativas que extrapolam o universo do feed. Em 2024, nasceu o Architecture Hunter Awards, uma premiação internacional com júri formado por nomes de peso como Piero Lissoni, Carlo Ratti, Tatiana Bilbao e Juan Ignacio Aranguren. No ano seguinte, veio o Hunter International Forum, pensado para reunir grandes nomes da arquitetura em São Paulo. Esses movimentos ampliam a marca porque transformam audiência em presença, conteúdo em encontro e influência em agenda. Em vez de depender apenas da distribuição digital, a empresa cria experiências próprias e passa a ocupar o calendário do setor.

O mais interessante é que tudo isso foi financiado pela própria operação, sem aportes externos. A equipe adota um modelo bootstrap, que exige disciplina, criatividade financeira e muito cuidado com os passos de expansão. Em vez de correr atrás de capital a qualquer custo, o trio preferiu construir a partir do caixa gerado pelo próprio negócio. Isso não apenas preserva autonomia, mas também obriga a empresa a ser rigorosa sobre prioridades. Se uma nova iniciativa entra em campo, é porque faz sentido estratégico e porque consegue se sustentar de forma inteligente. Esse raciocínio é particularmente valioso em setores como arquitetura e mercado imobiliário, onde a percepção de valor depende de consistência e de contexto.

Os números mostram que a operação encontrou um ponto de equilíbrio raro. A audiência está majoritariamente fora do Brasil, com grande presença da Europa e da Ásia, mas o faturamento segue apoiado por marcas brasileiras. Em paralelo, as novas frentes — inscrições do prêmio, patrocínios do fórum e ativações comerciais — ajudam a diversificar as receitas. O que começou como uma curadoria pessoal virou uma plataforma com múltiplos motores de monetização. E isso importa porque prova que uma marca editorial pode crescer sem abandonar seus princípios. Quando há clareza de propósito, a expansão deixa de ser ameaça e passa a ser consequência.

Lições para o mercado imobiliário

Para quem atua no mercado imobiliário, a história de Amanda Ferber oferece uma mensagem direta: conteúdo bom não é o que grita mais alto, e sim o que organiza percepção. Incorporadoras, escritórios de arquitetura, plataformas de vendas e empresas de design têm muito a aprender com a lógica de seleção da curadoria em arquitetura. Em um segmento onde os produtos costumam ser complexos, caros e cheios de detalhes técnicos, o papel da curadoria é reduzir ruído, destacar diferenciais e criar desejo com inteligência. Isso vale para lançamentos, para posicionamento de marca e para relacionamento com públicos altamente qualificados.

Outra lição está na importância de construir ativos próprios. Amanda não dependeu apenas de mídia paga, nem de uma tendência passageira. Ela criou uma marca, uma linguagem e um ecossistema que podem atravessar ciclos. No imobiliário, isso se traduz em pensar além da campanha e olhar para a jornada de reputação no longo prazo. Quem comunica bem hoje, mas não sustenta a promessa amanhã, perde credibilidade. Já quem desenvolve uma voz consistente, educa o público e respeita a inteligência da audiência, cria vantagem competitiva duradoura. Para agências e incorporadoras, isso significa investir em storytelling, seleção visual, autoridade técnica e presença consistente.

Também há um ensinamento sobre independência. Nem todo conteúdo precisa virar venda imediata. Às vezes, o maior retorno vem da confiança acumulada ao longo do tempo. A trajetória de Amanda mostra que um projeto editorial pode abrir portas comerciais justamente porque não parece subordinado ao comercial. É uma inversão importante para o setor: primeiro vem o valor percebido, depois a conversão. Quando a marca consegue sustentar esse equilíbrio, ela deixa de ser apenas mais uma comunicação de mercado e passa a ser referência. E referência, no fim das contas, é o que move decisão em segmentos premium.

Quando o olhar vira negócio, o jogo muda

O que Amanda Ferber construiu com o Architecture Hunter é mais do que um caso de sucesso em redes sociais. É a prova de que visão editorial, disciplina e coragem para preservar a essência podem transformar uma ideia simples em um negócio global. A curadoria não foi enfeite; foi estrutura. O inglês não foi só idioma; foi estratégia de alcance. O anonimato não foi ausência de autoria; foi tempo de maturação. E a independência editorial não foi obstáculo ao crescimento; foi o que sustentou a credibilidade que permitiu crescer.

No fim, a história dela conversa com o arquétipo do Mago e do Herói ao mesmo tempo: o Mago enxerga padrões onde outros veem só imagens, e o Herói avança mesmo sem garantia de aplauso. Amanda fez as duas coisas. Olhou com precisão, construiu com paciência e escalou sem perder o brilho original. Para o mercado imobiliário, essa é uma boa lembrança: as marcas mais fortes não são necessariamente as que falam mais, mas as que sabem exatamente o que vale a pena mostrar. E, quando esse olhar é bem treinado, ele pode abrir portas para negócios muito maiores do que se imaginava no começo.