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Acontece no mercado imobiliário

Áreas ociosas dos estádios viram receita imobiliária

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

9 de junho de 2026

tempo de leitura:

13 min

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Os estádios brasileiros estão deixando de ser usados apenas em dias de jogo para se tornarem empreendimentos imobiliários multiuso. Em vez de depender só de ingressos, camarotes e naming rights, administradores têm ocupado áreas antes vazias com escritórios, coworkings, restaurantes, lojas e espaços para eventos corporativos. O exemplo do Mané Garrincha, em Brasília, mostra como antigos camarotes podem virar lajes corporativas e atingir ocupação total, enquanto o estádio do Palmeiras expandiu suas receitas com hospitalidade, gastronomia e até leilões. A lógica é simples: se a arena fica ocupada poucos dias por ano, o restante do tempo precisa trabalhar também. Nesse movimento, surge uma nova forma de pensar o ativo esportivo, combinando arquitetura, operação e estratégia imobiliária para aumentar rentabilidade sem depender só do calendário esportivo. Veja como esse modelo está evoluindo no Brasil e por que ele pode redefinir o futuro das arenas:

Arena como ativo imobiliário

Por muito tempo, o estádio foi tratado como um lugar de uso intermitente: abre em dia de jogo, recebe alguns shows esporádicos e passa o restante do mês em silêncio. Essa lógica está mudando. Áreas ociosas dos estádios passaram a ser vistas como espaço de geração de valor permanente, o que altera não apenas a conta da operação, mas também a forma como esses empreendimentos são planejados, financiados e geridos. Em vez de depender só da bilheteria e do apelo esportivo, administradores começaram a enxergar cada metro quadrado como potencial receita: salas corporativas, coworkings, centros de convivência, restaurantes e áreas de hospitalidade. O raciocínio aproxima a arena de um shopping center ou de um complexo de uso misto, com fluxos distintos convivendo no mesmo endereço. E isso é especialmente relevante em cidades onde o futebol não concentra ocupação suficiente para justificar estruturas tão grandes durante o ano inteiro.

No mercado imobiliário, esse tipo de movimento é mais do que uma adaptação operacional: é uma resposta direta à necessidade de aumentar a eficiência do ativo. Quando o espaço é desenhado para funcionar só em horários específicos, ele perde produtividade. Quando passa a abrigar usos complementares, a arena ganha previsibilidade de receita, melhora a ocupação e dilui custos fixos. A transformação também conversa com uma tendência já consolidada fora do Brasil, onde estádios modernos foram projetados desde o início para operar como centros de entretenimento e negócios. No contexto brasileiro, essa virada ainda está em construção, mas os exemplos recentes mostram que o caminho é viável. O resultado é um modelo em que a arena não espera o jogo começar para gerar retorno: ela trabalha o ano inteiro.

Casos que já mudaram o jogo

O caso do Mané Garrincha, em Brasília, ajuda a explicar por que essa estratégia ganhou força. Os antigos camarotes foram convertidos em escritórios e hoje recebem mais de 100 empresas. O espaço, que antes ficava subutilizado em boa parte do ano, passou a operar com cerca de 15 mil metros quadrados de área locável e atingiu ocupação total. A evolução do projeto mostra uma combinação rara de oportunidade e leitura de demanda: ao identificar que o estádio permanecia vazio durante a maior parte do tempo, os gestores encontraram uma forma de monetizar volume construído sem depender exclusivamente de eventos esportivos. Os aluguéis chegaram perto de R$ 300 por metro quadrado, quase três vezes mais do que a faixa inicial de R$ 110, sinalizando que havia apetite do mercado por localização, conveniência e conceito.

Outro exemplo vem do estádio do Palmeiras, que já havia se consolidado como arena multiuso e continuou ampliando suas frentes de receita. No topo do edifício-garagem, um espaço pensado para hospitalidade durante partidas e shows passou a receber congressos, lançamentos e até leilões de gado. Para viabilizar esse uso, a infraestrutura precisou ser adaptada, inclusive com elevadores de carga aptos a transportar animais. Ao mesmo tempo, a administradora investiu em restaurantes e instalou seu próprio escritório no complexo, o que acabou estimulando a criação de um coworking. Essa evolução mostra que a lógica imobiliária funciona em camadas: primeiro nasce a ocupação própria, depois surgem ocupantes com perfil semelhante e, na sequência, o ecossistema se amplia. Em ambos os casos, o estádio deixa de ser apenas palco e se torna destino.

Segundo especialistas do setor, o ponto central é que os administradores passaram a encarar a arena como um ativo imobiliário de alta complexidade, e não apenas como uma infraestrutura esportiva. Isso explica por que o debate sobre rentabilidade hoje inclui áreas antes ignoradas, como camarotes, lajes superiores, corredores técnicos e espaços de circulação. Onde antes havia vazio, agora existe uma lógica de produto imobiliário. E isso tem impacto direto na precificação: quanto melhor a integração entre usos, maior a percepção de valor por parte de empresas, parceiros e operadores.

O que o projeto precisa ter

Nem todo estádio consegue seguir esse caminho com a mesma velocidade. Para transformar áreas ociosas dos estádios em receita recorrente, o empreendimento precisa ter condições físicas e operacionais para abrigar usos simultâneos sem prejudicar o evento principal. Isso inclui acessos independentes, áreas de carga e descarga, circulação eficiente, controle de segurança por zonas e infraestrutura preparada para diferentes tipos de público. Em arenas mais antigas, essas limitações costumam ser o principal obstáculo: o projeto não foi pensado para coexistência de funções, e qualquer adaptação exige obras complexas, custo elevado e, muitas vezes, perda de eficiência em outros pontos.

Já os empreendimentos mais recentes nascem com outra mentalidade. Em vez de imaginar o estádio como um equipamento isolado, os projetistas incorporam desde cedo a lógica de uso misto. Isso permite criar áreas corporativas com acesso controlado, restaurantes que funcionam fora dos dias de jogo e ambientes de hospitalidade que atendem tanto ao torcedor quanto ao público de negócios. A arena passa a ser desenhada como um organismo vivo, com horários, públicos e funções diferentes. Para o investidor, o ganho é claro: diversificação reduz risco. Para o usuário, a conveniência aumenta. Para a operação, a renda se distribui melhor ao longo do ano.

Infraestrutura que faz a diferença

Na prática, alguns elementos são decisivos para que o modelo funcione. Coberturas adequadas para eventos, áreas isoladas para operações corporativas, elevadores dimensionados para cargas especiais, acústica compatível com múltiplos usos e estacionamentos bem integrados fazem toda a diferença. Quando esses itens estão presentes, o estádio consegue receber atividades em paralelo sem conflito entre elas. Quando não estão, a arena fica presa ao calendário esportivo e perde competitividade frente a outros formatos imobiliários. É por isso que a discussão sobre projeto arquitetônico é tão importante: não se trata apenas de estética ou experiência do torcedor, mas de produtividade do ativo.

Essa visão também ajuda a entender por que a exploração de novos usos tende a crescer no Brasil de maneira gradual. A mudança depende de investimento, de gestão profissionalizada e de uma leitura muito fina da vocação de cada equipamento. Em algumas praças, o melhor caminho pode ser a ocupação corporativa; em outras, a hospitalidade; em outras, o entretenimento. O que não parece mais viável é deixar grandes áreas subutilizadas esperando um fluxo que não se sustenta sozinho. Em um mercado cada vez mais competitivo, espaço vazio é oportunidade perdida.

Hospitalidade e experiência viram negócio

Um dos movimentos mais interessantes desse mercado é o avanço da hospitalidade como produto. Empresas especializadas passaram a operar áreas ociosas e transformá-las em camarotes premium, ambientes de relacionamento e espaços de entretenimento com serviços que vão além do básico. No caso da Soccer Hospitality, por exemplo, o modelo começou com um espaço pequeno e hoje ocupa cerca de mil lugares no estádio palmeirense, além de estar presente em diversas arenas pelo País. A empresa não paga aluguel tradicional: assume a operação, investe na estrutura e compartilha a receita com os estádios. É uma lógica que combina empreendedorismo, ativação de marca e experiência do cliente.

O diferencial está em vender mais do que assentos. Há camarotes com barbearia, tatuagem, maquiagem, ações corporativas e até estandes de lançamentos imobiliários. Ou seja, o evento esportivo vira plataforma para relacionamento, negócios e lifestyle. Isso amplia muito o valor percebido do espaço e abre caminho para novas fontes de monetização. Em vez de um produto limitado ao jogo, a arena passa a oferecer um pacote completo de experiência. E, para marcas e empresas, essa ambientação é extremamente valiosa porque coloca o público em contexto emocional favorável. O estádio deixa de ser apenas local de consumo passivo e vira canal de ativação.

Esse tipo de operação mostra que o futuro da receita em arenas passa pela capacidade de criar desejo, permanência e recorrência. Em vez de depender da emoção de 90 minutos, o negócio se sustenta na experiência antes, durante e depois do evento. É um raciocínio que conversa com o mercado imobiliário contemporâneo: ativos com uso misto, forte apelo de marca e operação profissional tendem a capturar mais valor ao longo do tempo. Quando a arena entende isso, ela deixa de competir apenas com outros estádios e passa a disputar atenção com centros de convenções, escritórios flexíveis, restaurantes e espaços de entretenimento premium.

A próxima jogada já começou

O avanço desse modelo indica que o estádio do futuro será cada vez menos monofuncional. A tendência é que novas arenas sejam concebidas como hubs urbanos, capazes de combinar esporte, trabalho, lazer, gastronomia e eventos de negócios em um só endereço. Nesse cenário, o calendário esportivo continua importante, mas deixa de ser a única âncora econômica. A arena ganha autonomia financeira, melhora sua eficiência e se aproxima de uma lógica de desenvolvimento imobiliário de longo prazo. Áreas ociosas dos estádios, antes vistas como passivos, passam a ser parte central da estratégia.

No Brasil, o ritmo ainda é gradual, mas a direção parece clara. À medida que mais administradores percebem o potencial de espaços antes ignorados, cresce a chance de surgirem projetos ainda mais sofisticados, com ocupação corporativa, hospitalidade e entretenimento operando lado a lado. O aprendizado é simples e poderoso: onde existe estrutura subutilizada, existe valor esperando para ser ativado. E, no caso das arenas, esse valor está começando a ser encontrado justamente onde ninguém olhava antes. O jogo mudou — e quem entender isso cedo vai sair na frente.