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Acontece no mercado imobiliário

Rafael Birmann e o desafio além da Faria Lima

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

21 de maio de 2026

tempo de leitura:

13 min

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Rafael Birmann, um dos nomes mais ligados à transformação da Faria Lima, afirma que a avenida já não oferece o mesmo espaço para novos empreendimentos de impacto. Depois de marcar a região com projetos como o B29 e, sobretudo, o B32 — o edifício da Baleia —, o investidor diz que hoje só voltaria ao mercado por algo realmente transformador. Em entrevista, ele explica por que considera a Faria Lima “acabada” em termos de oportunidades, como enxerga as áreas ainda em consolidação em São Paulo e por que o desafio, para ele, vale mais do que a facilidade de tocar um projeto prime. A história também passa pela origem simbólica da Baleia, pelos atrasos da obra que acabaram favorecendo o timing de entrega e pela trajetória de um incorporador que nunca se vendeu como guru, mas como alguém que investe quando dá. A seguir, os principais pontos dessa visão sobre mercado, legado e coragem para apostar no novo:

O fim da era na Faria Lima

Rafael Birmann já ajudou a escrever alguns dos capítulos mais marcantes da transformação da Faria Lima em centro financeiro de São Paulo. Agora, com a segurança de quem viu a avenida sair de uma fase de expansão para um território praticamente saturado, ele crava que a Faria Lima acabou para quem procura novos espaços de realização imobiliária. A frase, direta e provocativa, não é apenas uma provocação de mercado: ela traduz a percepção de que as oportunidades mais óbvias já foram ocupadas, enquanto o estoque de terrenos e de imaginário urbano se tornou escasso. Birmann, que ficou conhecido por empreendimentos corporativos de forte identidade, afirma que um projeto hoje na região seria até mais fácil do que desbravar áreas ainda em consolidação. O difícil, segundo ele, é encontrar algo que realmente eleve a régua.

Essa visão ajuda a entender por que o investidor não se empolga com a repetição do que já deu certo. Para ele, empreender no mesmo eixo onde tantos já acertaram não significa necessariamente criar valor novo. O que o move, diz, é o salto de qualidade, o impacto urbano e a capacidade de deixar uma marca que vá além do metro quadrado. Em um mercado que costuma premiar a previsibilidade, Birmann se coloca na posição inversa: a de quem quer ser testado. É nesse ponto que sua história deixa de ser apenas sobre localização e passa a ser sobre ambição, legado e coragem para procurar o próximo símbolo antes que ele exista.

Quando o óbvio já foi ocupado

A Faria Lima se consolidou ao longo de décadas como um dos endereços mais desejados do país, concentrando sedes corporativas, fundos, escritórios e os projetos mais disputados do mercado imobiliário paulistano. Foi nesse movimento que Birmann surfou uma onda rara: comprou terrenos no chamado novo trecho da avenida, participou da mudança de vocação da região e ajudou a consolidar uma paisagem que hoje parece natural, mas que exigiu visão em um momento em que nada era óbvio. A avenida, que começou a ganhar status de potência financeira após a ampliação dos anos 1990, virou sinônimo de prestígio, liquidez e valorização. Só que, como ele mesmo sugere, toda fronteira de sucesso tem um ponto em que deixa de ser fronteira.

Ao dizer que a Faria Lima acabou, Birmann não está decretando o fim da avenida como ativo valioso, muito menos da sua relevância. Ele está falando do esgotamento do extraordinário. Em uma área já plenamente reconhecida, a tarefa de construir mais um edifício premium se torna menos uma aventura e mais uma operação bem calculada. Isso contrasta com o tipo de desafio que ele procura: algo capaz de surpreender, deslocar o olhar e criar novo valor em regiões onde a tese ainda precisa ser construída. É por isso que ele cita áreas como Berrini e Chucri Zaidan, onde ainda existe uma narrativa a ser refinada, embora o risco de execução e aceitação seja maior. Para o investidor, é nessa tensão entre incerteza e criação que mora a verdadeira oportunidade.

A Baleia como marco urbano

Se o B29 foi um projeto importante na trajetória de Birmann, o B32 virou a sua obra mais emblemática. Entregue em 2020 após uma longa jornada de desenvolvimento, o edifício foi além da lógica corporativa convencional ao incorporar convivência, cultura e uma identidade visual impossível de ignorar. O teatro e os espaços abertos ajudaram a reposicionar o papel do empreendimento na avenida, enquanto a estrutura externa inspirada em uma baleia se tornou um símbolo urbano e um ponto de referência imediato. Não por acaso, o prédio ganhou apelidos, virou assunto recorrente e passou a fazer parte da paisagem afetiva da região.

A história do símbolo é quase uma aula sobre intuição aplicada ao mercado. Birmann conta que encontrou uma referência visual em uma revista velha e, com a ajuda do filho Pedro, decidiu transformar aquela impressão em algo maior. A escolha da baleia não veio pronta com significado: primeiro houve a imagem, depois a interpretação. E foi justamente isso que deu força ao projeto. Ao pesquisar o animal, ele encontrou associações com sustentabilidade, urbanismo e literatura, inclusive a perseguição obsessiva de Moby Dick. O edifício, então, deixou de ser apenas um endereço corporativo e passou a operar como narrativa. Em um setor marcado por racionalidade, esse tipo de dimensão simbólica cria memória, diferenciação e uma camada extra de valor. É também por isso que o B32 se tornou uma referência tão forte dentro da própria Faria Lima.

Hoje, com quase 60 mil metros quadrados de área locável, o edifício disputa uma posição privilegiada entre os ativos mais cobiçados da avenida. Seu aluguel, na casa de R$ 365 por metro quadrado, reflete não apenas qualidade construtiva, mas também a força de marca que um projeto bem resolvido pode construir ao longo do tempo. Para leitores que acompanham a dinâmica dos ativos de alto padrão, vale observar como empreendimentos assim ultrapassam a lógica da oferta tradicional e passam a competir também por prestígio, experiência e identidade. Em termos de posicionamento, o caso do B32 conversa com um conceito cada vez mais valorizado em projetos premium: não basta estar em um bom lugar; é preciso fazer o lugar ganhar nova importância. Mais sobre essa transformação pode ser visto na cobertura da própria região em análises urbanas sobre a Faria Lima.

Timing, mercado e risco

Um dos trechos mais reveladores da fala de Birmann é quando ele comenta o timing de entrega do B32. O projeto deveria ter ficado pronto em 2016, em uma fase em que os aluguéis na região estavam bem mais baixos. Se isso tivesse acontecido, diz ele, o prédio teria sido deficitário e provavelmente receberia o rótulo de aposta errada. Como a conclusão só veio em 2020, o contexto mudou completamente, e o mesmo projeto passou a ser visto como acerto de visão. A lição aqui é poderosa: no mercado imobiliário, tempo não é detalhe operacional; é parte da tese. Um bom produto entregue cedo demais ou tarde demais pode atravessar cenários muito diferentes de demanda, preço e percepção.

Esse raciocínio é especialmente importante para quem acompanha o mercado imobiliário de alta renda ou investimentos corporativos. Projetos de longa maturação dependem não apenas de localização e conceito, mas de leitura do ciclo. Birmann admite que não controla isso com precisão e que nunca se viu como um guru capaz de prever o futuro. Essa honestidade é valiosa porque desmonta a fantasia de onisciência, muito comum em setores que celebram grandes resultados sem mostrar as incertezas no caminho. O que ele descreve é uma postura mais pragmática: investir quando a janela se abre, seguir em frente quando as condições permitem e aceitar que parte do desfecho é construída por fatores externos.

O novo desafio para o mercado

Depois do B32, Birmann não avançou para uma nova obra na mesma velocidade que muitos imaginariam. Ele chegou a se envolver em um projeto na Marginal Pinheiros, perto do Parque Burle Marx, mas o plano não foi adiante. Também engavetou iniciativas em Buenos Aires, os futuros B33 e B34. A lista de intenções interrompidas mostra que, mesmo para um investidor experiente, nem toda oportunidade amadurece o suficiente para sair do papel. E isso reforça uma ideia central da entrevista: o mercado imobiliário não é movido apenas por capital, mas por convicção. Quando falta uma proposta que o instigue de verdade, ele prefere esperar.

É nesse ponto que o discurso dele se torna mais interessante para quem pensa em marketing imobiliário e posicionamento de marca. O que Birmann quer não é apenas construir mais um edifício, e sim encontrar um projeto capaz de mobilizar desejo, conversa e percepção de valor. Em termos estratégicos, isso é o que diferencia um produto comum de um produto desejado. Em regiões já consolidadas, como a Faria Lima, esse diferencial tende a ser cada vez mais difícil de encontrar. Em áreas emergentes, por outro lado, a criação de valor depende de educar o mercado, sustentar narrativa e suportar tempo de maturação. É um jogo mais difícil, mas justamente por isso mais interessante para quem busca protagonismo.

A fala de Birmann, portanto, não é um lamento nostálgico sobre o passado dourado da avenida. É uma declaração de fase. Ele reconhece que a Faria Lima já entregou sua grande virada e que o próximo capítulo, se houver, precisa ser escrito em outro lugar ou de outra forma. Para o setor, essa visão ajuda a entender um princípio essencial: a melhor oportunidade imobiliária nem sempre está onde todo mundo já enxerga valor. Às vezes, ela está onde ainda existe espaço para criar significado, reposicionar a paisagem e gerar uma nova história de valorização.

Quando o legado aponta para a próxima virada

Rafael Birmann se comporta como alguém que já venceu uma grande batalha, mas não quer viver apenas dela. Sua trajetória mostra que o verdadeiro diferencial não está só em comprar bem, mas em construir algo que resista ao tempo, desperte afeto e se torne referência. A Baleia fez isso. A Faria Lima, em parte, também. Agora, o investidor parece buscar um território onde ainda seja possível surpreender de novo. E isso exige mais do que recursos: exige leitura, paciência e o apetite para encarar o risco sem romantizá-lo.

No fim, a história deixa uma provocação útil para o mercado imobiliário: se uma avenida pode “acabar” como espaço de desafio, talvez o próximo grande projeto esteja justamente fora do radar mais óbvio. E é aí que o olhar estratégico faz diferença. Onde muitos veem estabilidade, alguns enxergam saturação; onde outros veem vazio, poucos identificam potencial. Birmann parece estar nesse segundo grupo. Se vier um novo projeto, ele não quer apenas repetir a fórmula. Quer, como diria o próprio investidor, algo transformador — daqueles que fazem o mercado parar e olhar duas vezes.