O High Line, em Nova York, virou referência mundial ao transformar uma antiga linha de trem elevada em parque urbano, com forte apoio comunitário e financiamento majoritariamente privado. Já o Minhocão, em São Paulo, segue no centro de uma disputa entre demolição e requalificação, enquanto moradores, urbanistas e poder público tentam definir o futuro de um dos espaços mais controversos da cidade.
A comparação entre os dois projetos revela lições importantes sobre uso do espaço, demanda social, ativação econômica e desenho urbano. Mais do que uma obra de paisagismo, o debate envolve saúde urbana, valorização do entorno e o papel dos parques como infraestrutura essencial para as cidades. Neste artigo, você vai entender as diferenças entre os dois casos, os desafios de financiamento e operação e por que o Minhocão pode inspirar uma nova visão de cidade:
High Line e a lição urbana
O High Line, em Nova York, nasceu de um problema urbano e virou um símbolo global de reinvenção. A antiga linha férrea elevada, construída nos anos 1930 para transporte de cargas e abandonada décadas depois, quase foi demolida. O que mudou o destino da estrutura foi a mobilização dos moradores da região, que enxergaram ali não apenas concreto e ferrugem, mas uma oportunidade de criar valor público, convivência e nova vitalidade para o bairro. Dessa pressão social surgiu a Friends of the High Line, organização que passou a liderar a operação e a manutenção do parque, inaugurado em 2009 e expandido em fases ao longo dos anos.
Essa história importa porque vai muito além do paisagismo bonito ou da foto turística. O High Line demonstrou que espaços verdes podem ser tratados como infraestrutura urbana estratégica, com impacto na economia local, no fluxo de pessoas e na percepção de qualidade de vida. Ao redor dele, o mercado imobiliário se reorganizou, novos usos surgiram e a região passou a receber uma atenção que antes parecia improvável. Ainda assim, o projeto não aconteceu por acaso: ele dependeu de demanda social clara, articulação política e uma visão de longo prazo capaz de sustentar a transformação. É justamente aí que o Minhocão entra na conversa como um caso brasileiro que observa, com atraso e urgência, uma experiência parecida.
Alan Van Capelle, diretor executivo do High Line, resume bem a mudança de mentalidade necessária para esse tipo de projeto: parques e áreas verdes ainda não recebem o mesmo status que museus ou bibliotecas na cabeça das pessoas. E isso tem consequência direta no orçamento público, na prioridade de investimento e na forma como as cidades planejam seu futuro. Quando a pandemia reforçou a importância dos espaços abertos, ficou ainda mais evidente que parques não são enfeite; são parte da estrutura que sustenta a vida urbana. A comparação com São Paulo ajuda a entender por que essa discussão está longe de ser estética e toca em temas como saúde, mobilidade, densidade e valorização do entorno.
O dilema do Minhocão em São Paulo
Em São Paulo, o Minhocão vive uma encruzilhada conhecida: ele foi projetado como via elevada, mas hoje carrega um debate que ultrapassa o trânsito. O Plano Diretor prevê sua desativação até 2029, porém a cidade ainda não definiu se o caminho será a demolição ou a conversão em parque linear. A dúvida não é pequena, porque envolve o destino de uma estrutura que impacta a paisagem, o entorno imobiliário, a mobilidade e a vida de milhares de pessoas. Para uns, a derrubada é a solução mais honesta, já que o elevado produz ruído, sombra, barreiras físicas e efeitos negativos que não terminam na pista. Para outros, ele representa uma chance rara de requalificação urbana em grande escala.
O interesse no tema cresce porque o Minhocão já é ocupado de forma espontânea. À noite e nos fins de semana, quando é fechado para carros, o elevado se transforma em uma espécie de passeio improvisado, com gente caminhando, pedalando, correndo e convivendo no meio da avenida suspensa. Essa apropriação espontânea é um dado poderoso: mostra que existe uma demanda real por uso humano do espaço. Em outras palavras, a cidade já sinaliza o que quer ver ali. É por isso que Alan Van Capelle chama atenção para o fato de os cidadãos subirem o Minhocão mesmo sem árvores, mobiliário ou projeto paisagístico. Se o espaço já funciona como destino, o que aconteceria com uma intervenção qualificada?
Essa pergunta interessa diretamente ao mercado imobiliário e ao planejamento urbano. Projetos de requalificação podem alterar a percepção de valor em bairros inteiros, estimular novos negócios e atrair investimentos de uso misto. Mas eles também exigem decisão política, desenho cuidadoso e um modelo de operação que não dependa apenas do entusiasmo inicial. O caso do Minhocão, portanto, não é só sobre “derrubar ou preservar”; é sobre escolher que tipo de cidade São Paulo quer construir e quanto está disposta a investir para isso funcionar de verdade. Nesse ponto, o diálogo com o High Line ajuda a abandonar a lógica do improviso e pensar em estratégia.
A demanda já existe
Quando uma população ocupa um espaço antes mesmo de ele ser redesenhado, a cidade recebe um recado claro. No caso do Minhocão, esse recado é simples: há desejo por áreas de permanência, lazer e encontro no centro urbano. A presença de pessoas no elevado em horários específicos indica que o problema não é falta de público, mas falta de qualificação espacial. Onde existe sombra, ruído e concreto bruto, ainda assim aparece uso. Isso sugere que, com vegetação, segurança, programação e acessibilidade, o potencial de transformação pode ser muito maior.
O que torna um parque sustentável
Um dos pontos mais interessantes do High Line é sua engenharia financeira. O orçamento anual gira em torno de US$ 24 milhões, quase todo vindo de fontes privadas. Há receitas geradas por concessões de alimentos, eventos, ativações de marca e aluguel ocasional de áreas, além de uma agenda contínua de cultura e arte pública que mantém o parque vivo. Esse modelo mostra que um parque pode ser mais do que um custo fixo para a cidade: ele pode funcionar como ativo urbano, desde que tenha gestão profissional, programação consistente e capacidade de gerar relevância ao longo do tempo. Essa lógica é especialmente importante em tempos de restrição orçamentária e competição por recursos públicos.
Mas copiar o modelo de Nova York sem adaptar ao contexto seria um erro. São Paulo tem outra escala, outra dinâmica social e outro histórico de desigualdade territorial. Ainda assim, a lição central permanece: parques precisam de propósito, operação e vínculo com a comunidade. Não basta inaugurar um espaço bonito; é preciso fazer com que ele seja usado, cuidado e integrado ao cotidiano da cidade. Isso vale para áreas lineares, praças de bairro, frentes d’água e grandes eixos suspensos. O sucesso do High Line mostra que a combinação entre desenho urbano e gestão de longo prazo pode multiplicar o valor percebido do espaço público.
Há também uma dimensão simbólica que não pode ser ignorada. Quando um parque passa a ser tratado como infraestrutura essencial, ele deixa de competir com as “obras importantes” e entra no mesmo patamar de investimentos estruturantes. Essa mudança de mentalidade pode influenciar desde a forma como prefeituras alocam recursos até a maneira como incorporadoras e investidores analisam o entorno. Em mercados imobiliários maduros, a presença de áreas verdes qualificadas, acessíveis e programadas altera preços, atrai moradores e reposiciona regiões inteiras. Por isso, a discussão sobre o Minhocão tem interesse que vai além do urbanismo: ela toca diretamente a economia da cidade.
O futuro possível para o elevado
Se São Paulo decidir transformar o Minhocão em parque, o desafio será muito maior do que plantar árvores sobre uma laje. Será necessário pensar em conexões com o térreo, iluminação, conforto ambiental, usos cotidianos, segurança, manutenção e programação cultural. O projeto precisaria criar uma experiência urbana que faça sentido não só para visitantes, mas para quem vive e trabalha no entorno. A oportunidade é enorme: um parque linear pode costurar áreas fragmentadas, estimular fachadas ativas e reforçar a centralidade do centro paulistano. Mas a transformação só se sustenta se houver governança clara e visão de longo prazo.
Também será preciso encarar a dimensão política da escolha. Demolir ou transformar não é apenas uma decisão técnica; é uma escolha sobre memória urbana, redistribuição de benefícios e prioridades de investimento. Em muitos casos, a cidade se divide entre a vontade de apagar um problema e a aposta de convertê-lo em oportunidade. O High Line ensina que, quando há mobilização social, desenho inteligente e modelo de gestão consistente, estruturas obsoletas podem ganhar nova vida sem perder sua força simbólica. No caso brasileiro, a pergunta mais poderosa talvez seja: o que o espaço já está pedindo para ser?
Se o Minhocão receber uma intervenção robusta, ele pode deixar de ser apenas um corredor elevado para se tornar um eixo de convivência e valor urbano. E isso vale para o poder público, para os moradores e para quem observa o mercado imobiliário com atenção. Lugares assim não mudam só a paisagem; mudam a narrativa de um bairro inteiro. Quando uma cidade decide investir em qualidade de espaço, ela não está apenas embelezando uma estrutura. Está redefinindo possibilidades de uso, circulação e permanência.
Um novo capítulo para a cidade
O debate entre High Line e Minhocão mostra que cidades bem-sucedidas não são as que escondem seus conflitos, mas as que conseguem transformá-los em solução. O parque nova-iorquino provou que uma infraestrutura abandonada pode se tornar destino, ativo urbano e motor de desenvolvimento. São Paulo, por sua vez, ainda está diante da escolha entre remover ou reinventar. Em qualquer cenário, a lição mais importante é clara: espaços verdes precisam ser tratados como necessidade urbana, não como luxo.
No fim, o maior aprendizado talvez seja menos sobre copiar um modelo e mais sobre reconhecer uma oportunidade. O Minhocão já tem uso, já tem debate público e já tem potencial de reconfigurar o entorno. Falta transformar essa energia em projeto. Se isso acontecer, o elevado pode deixar de ser apenas um problema herdado do passado e virar um capítulo novo, mais humano e mais inteligente, na história da cidade. E é justamente nesse ponto que a visão de urbanismo encontra a lógica do mercado: quando o espaço melhora, a cidade inteira sobe junto.