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Acontece no mercado imobiliário

O lado negligenciado do aluguel de temporada no mercado imobiliário

escrito por

Marcia Garcia

publicado em

8 de dezembro de 2025

tempo de leitura:

9 min

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O debate sobre o aluguel de temporada no Brasil frequentemente se concentra em suas consequências negativas, como o aumento dos preços dos imóveis e o impacto na moradia local. No entanto, um estudo da FGV revela que esse fenômeno movimentou R$ 99,8 bilhões em 2024, gerando cerca de 627 mil empregos e impulsionando a economia local. A crítica ao aluguel por temporada ignora a verdadeira raiz do problema habitacional: a escassez de oferta de imóveis.
 
Em vez de restringir essa prática, que também traz benefícios, como o fomento a pequenos negócios e a distribuição de renda, é fundamental abordar os entraves regulatórios que dificultam a construção de novas moradias. O foco deve ser em políticas que incentivem a oferta habitacional e tornem as cidades mais inclusivas e dinâmicas. Vamos explorar como o mercado imobiliário pode ser revitalizado e como o aluguel de temporada pode ser parte da solução, não do problema:

OPINIÃO: O debate sobre aluguel de temporada no Brasil está olhando para o lado errado

O fenômeno do aluguel de temporada no Brasil tem gerado uma série de discussões acaloradas, especialmente nas grandes cidades. Muitos críticos apontam que essa prática eleva os preços dos imóveis e prejudica os moradores locais, mas será que estamos realmente compreendendo o problema de forma adequada? As informações recentes da FGV mostram um impacto econômico significativo do aluguel por temporada, mas o debate público parece focar apenas nas consequências superficiais, ignorando a raiz da questão.

Um Olhar Mais Profundo sobre os Números

De acordo com um estudo da FGV, em 2024, o Airbnb movimentou impressionantes R$ 99,8 bilhões, sustentando aproximadamente 627 mil empregos e injetando R$ 55,8 bilhões no PIB do país. Além disso, cada R$ 10 gastos em hospedagem geram outros R$ 52 na economia local, beneficiando restaurantes, mercados e outros estabelecimentos. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Airbnb foi responsável por movimentar cerca de R$ 9,9 bilhões e erguer mais de 61 mil postos de trabalho. Esses números não devem ser ignorados.

Porém, mesmo diante desse cenário promissor, as críticas ao modelo de aluguel de temporada persistem. Muitos argumentam que o sistema pressiona os preços de aluguéis residenciais e contribui para uma crise habitacional. Mas, se olharmos mais de perto, veremos que a verdadeira causa dessa crise não é o aluguel por temporada, mas sim a falta de oferta de imóveis. Essa escassez, que é comum em várias cidades brasileiras, é que efetivamente faz com que os preços subam.

A Escassez como Causa do Problema

A lógica de mercado nos ensina que, quando um bem é escasso, seu preço tende a aumentar. Isso se aplica a qualquer produto – sejam imóveis, alimentos ou combustíveis. O desafio enfrentado pelo mercado imobiliário brasileiro é a construção lenta e burocrática, resultante de décadas de entraves regulatórios. Enquanto isso, debates sobre a limitação do uso dos imóveis, como o aluguel de temporada, simplesmente desviam o foco do que realmente importa: a necessidade de aumentar a oferta de moradias.

Imagine que você trabalhou arduamente para adquirir um imóvel como investimento legítimo. Como pode haver justificativas para limitar a forma como você rentabiliza esse ativo? A moradia é, indiscutivelmente, uma necessidade essencial. Contudo, tentar controlar os preços ou restringir o uso legítimo de imóveis não resolve os problemas subjacentes; ao contrário, cria distorções que desestimulam a oferta e aprofundam a escassez.

O Mito do Controle de Preços

O Brasil já experimentou no passado tentativas de congelamento de preços, especialmente em bens essenciais. Os anos 1980 são um exemplo claro disso, quando a tentativa de controlar os preços resultou em prateleiras vazias e mercado informal. Ninguém defende hoje um tabelamento do preço da carne ou do pão, e por que deveríamos então considerar restrições ao aluguel de temporada? O caminho para resolver questões habitacionais não está em controle de preços, mas em criar um ambiente que favoreça o aumento da oferta.

Cidades globais como Lisboa, Barcelona e Nova York enfrentaram desafios semelhantes ao limitarem a construção e renovação de estoques residenciais. Com o crescimento da demanda superando a oferta, os preços inevitavelmente subiram. O aluguel de temporada se tornou o vilão, enquanto a verdadeira responsabilidade recai sobre as limitações de urbanismo e planejamento.

A Realidade do Turismo e seus Benefícios

É importante também destacar que o aluguel de temporada não concentra os gastos turísticos apenas nas áreas tradicionalmente turísticas. Ao contrário, ele espalha o consumo e movimenta diversos setores da economia local, como padarias, farmácias e pequenos serviços. Esses benefícios econômicos são frequentemente ignorados nas discussões, que se concentram no que há de negativo.

O turismo deve ser visto como uma ponte para a distribuição de renda, em vez de um problema a ser contornado. Limitar o aluguel de temporada seria contradizer o desejo de dinamizar bairros e atrair visitantes. Em vez de restringir, precisamos encontrar formas de expandir a oferta e garantir uma cidade vibrante, aberta e competitiva.

Os Verdadeiros Desafios Urbanos

O Brasil enfrenta problemas urgentes, como o déficit habitacional e a falta de infraestrutura urbana. No entanto, atacar o aluguel por temporada não é a solução. A discussão precisa girar em torno da criação de políticas urbanas eficazes que incentivem a construção, a mobilidade e o adensamento urbano. Cidades que realmente desejam competir globalmente não podem se dar ao luxo de fechar as portas ao turismo e a novas oportunidades econômicas.

A verdadeira questão é: como podemos expandir a oferta de imóveis e tornar as cidades mais inclusivas e acessíveis? A resposta não é restringir, mas incentivar a construção e a inovação no setor imobiliário. É vital que as conversas evoluam para tratar dos problemas fundamentais que afetam o mercado, em vez de focar apenas na superfície.

A Necessidade de Inovação no Setor Imobiliário

As cidades precisam urgentemente de soluções inovadoras para os desafios que enfrentam. Isso inclui investimentos em infraestrutura, reformas em processos burocráticos e incentivos para a construção de novas moradias. O aluguel de temporada deve ser considerado como uma parte da solução, não como parte do problema.

Precisamos reconhecer que a escassez é a verdadeira causa do aumento dos preços. Portanto, o foco deve ser em como trazer mais opções ao mercado, ao invés de limitar o que já existe.

Dinamizando a Discussão

É hora de mudar o rumo das discussões sobre aluguel de temporada no Brasil. Precisamos focar em como expandir as opções para quem busca moradia, ao invés de inibir investimentos e oportunidades. A chave é promover um diálogo mais construtivo, que envolva todos os stakeholders, desde gestores públicos até investidores privados.

Ao final, o que queremos são cidades que prosperem, onde o turismo e a moradia coexistam em harmonia. Com essa abordagem, podemos construir um futuro mais sustentável e justo, onde todos possam usufruir dos benefícios de um mercado imobiliário dinâmico e acessível.

Vamos unir forças para transformar essa visão em realidade!